Passo clássico

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

Hoje o balé clássico é procurado por meninas que querem dançar independentemente [br]de modismos

Foi-se o tempo em que o balé clássico era uma escolha unânime das mães de classes média e alta, que matriculavam suas filhas nessa modalidade. Os tempos mudaram, as opções se diversificaram e, hoje, a garotada decide o que quer ou não fazer. Contudo, as escolas de balé clássico ainda andam cheias de meninas interessadas em pliés, pas-de-deux, arabesque e piruetas. A técnica continua sendo a base para qualquer tipo de dança e faz a cabeça de crianças que, ao contrário de antigamente, vão às aulas por vontade própria. "Agora, quem faz balé é porque gosta de verdade. Antes era uma moda, as meninas seguiam as amiguinhas", diz uma das professoras do Ballet Stagium, Marina Gebara. "É mais gratificante ensinar assim." No salão onde são realizadas as aulas, suas três alunas esmeram-se nas posturas, de collant, coque, meia calça e sapatilhas. A cor ainda é o rosa, mas já não há tanta rigidez. Para ensinar os movimentos, a professora lança mão de imagens, como alusões a passarinhos e outros bichos, ou "faça isso com a atitude de quem pega uma cesta de flores." Uma das alunas do Stagium, Manuela Serra, de 9 anos, pratica balé desde os 3 anos. "Gosto dos passos, do aquecimento e do espetáculo de final de ano." Foi ela que pediu à mãe para fazer as aulas. "Minha avó, às vezes, vem ver a minha aula." Maria Júlia Guimarães Caruso, outra aluna do Stagium, de 8 anos, está na classe há um ano. "É legal. Quando estou em casa, ligo o rádio e começo a dançar", conta. A terceira colega, Marcela Faragone de Lara Eugênio, de 6 anos, também adora o balé, apesar de não achar fácil. "Tem passos difíceis, mas daí fico treinando em casa." As fundadoras da companhia de dança e da escola do Ballet Stagium, Márika Gidali e Geralda Bezerra de Araújo, constatam que o balé clássico passou por uma transformação desde que abriram a escola, em 1963. "O conceito de dança mudou, mas o clássico ainda é a base para qualquer tipo de dança", fala Márika. Em sua escola, exatamente por isso, é a única modalidade permitida para crianças e iniciantes. Só depois de dominar a técnica do clássico é que a pessoa pode se encaminhar para a dança contemporânea. No Stagium, o ensino nunca foi ortodoxo e sempre incluiu músicas populares e elementos de outros tipos de dança. "Tem que ter prazer nesse aprendizado", reforça Márika. Segundo ela, não é necessário começar tão cedo a prática: com uns 9 anos está ótimo. "A auto-estima cresce quando a criança consegue vencer os próprios limites", fala. "Também ganha conhecimento corporal. A menina pode ser gordinha, mas vai aprender a lidar com seu corpo." Ela ressalta ainda a importância de se fugir do mito da princesa. "A fantasia e o sonho são importantes, mas é bom mostrar que existe mais no próprio conceito da arte." Apesar de a escola ser procurada principalmente pelas classes média e alta, o Stagium promove oficinas de dança para crianças e jovens da periferia no Projeto Joaninha. Uma das proprietárias da academia do Studio 3 e diretora da Cia. Sociedade Masculina, Liliane Benevento, também promove aulas de balé clássico para crianças de famílias de baixa renda. "Hoje há muitas ONGs em todo Brasil que fazem esse trabalho, há grandes talentos no País." Ela explica que a metodologia mudou e já não há mais o clichê da bailarina magra, longilínea e bonita. "O importante é gostar de dançar e ter carisma no palco."TRADIÇÃO CLÁSSICA Apesar de ser uma conceituada companhia de dança contemporânea, a Cisne Negro tem uma das mais tradicionais escolas de balé clássico. Fundada há 45 anos, por Hulda Bittencourt, é dirigida por sua filha, Giselle Bittencourt, e hoje tem 350 alunas. A metodologia usada é inglesa, do Royal Academy Dancing. "Nesse método, não se força a criança a fazer nada além do que ela pode", conta Hulda. "Quando as crianças são pequenas, as aulas são lúdicas. Trabalhamos musicalidade, expressão e percepção corporal", completa Giselle. É a partir dos 7 anos que começam as aulas de balé, de fato. A metodologia inclui movimentos livres e danças de diversos países. Na opinião de Giselle e Hulda, quanto mais cedo a criança começar as aulas de balé, maior será o seu desenvolvimento. Mas, apesar disso, nada impede que se comece mais tarde. "Hoje é muito comum a procura de adolescentes por aulas de balé, mais até do que de crianças", conta Hulda. "Mas tem muitos pais que ainda consideram que o balé é essencial na formação das meninas. É a melhor prática, porque faz bem para o corpo, alma e coração", opina Giselle. A modalidade trabalha a postura, coordenação motora, percepção corporal, musicalidade e o desenvolvimento do corpo (que fica mais alongado). Além disso, é indicada por médicos para corrigir casos como pernas em X, pé chato e outros problemas ortopédicos. O Cisne Negro também quer continuar o seu projeto social em 2008, promovendo oficinas para comunidades carentes. Hulda já deixa um aviso: "estamos oferecendo bolsas integrais para meninos que queiram dançar balé, a partir dos 7 anos." Isso porque, segundo ela, o velho tabu ainda reina: praticamente, só há meninas na escola. "Fora do Brasil, é normal haver meninos nas aulas de balé clássico. É uma pena que aqui ainda haja esse preconceito, tem muitos meninos talentosos", fala Giselle. Uma das poucas exceções é o jovem Gabriel Fialkovitz, de 15 anos, que faz aulas de balé clássico no Cisne Negro há cinco anos. "Minha mãe é dona de uma escola e, desde pequeno, eu gostava de acompanhar as aulas de balé", conta. "A dança é ótima, você se solta e desenvolve a consciência do espaço." Hoje, ele viaja bastante para se apresentar em festivais com o seu grupo. Há até uma possibilidade de ir para Nova York dançar. "Ainda bem que minha família sempre me incentivou." Mas o cenário da escola é composto mesmo por muitas e muitas meninas. Vestidas de branco, rosa e azul, dependendo da idade, elas aparecem para a aula impecáveis com seus coques ornamentados. Sophia Poole, de 7 anos, Helena Ramos, de 8, Carolina Cardoso Birztein, de 5, Julia Alcazar, também de 5 anos, são algumas das alunas. "Gosto muito de dançar: o balé me deixa alegre", diz Júlia da Silva Pollo, de 7 anos. "Quero continuar pelo menos até chegar na sapatilha de ponta." Este é o sonho da maioria das meninas que enchem a sala de movimentos graciosos e posturas elegantes. SERVIÇO Ballet Stagium: R. Augusta, 2.985, 2º andar, tel.: 3085-0151 Estúdio de Ballet Cisne Negro: R. das Tabocas, 55, V. Beatriz, tel.: 3031-0930