Para médicos, ações do governo são ineficazes

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

A culpa pelo surto de dengue no País deve ser dividida entre prefeituras, Estados e o Ministério da Saúde, de acordo com especialistas ouvidos pelo Estado. Os programas oficiais de combate à doença, segundo eles, são ineficientes. "Os manuais da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) e do Ministério da Saúde mandam que os agentes de saúde visitem uma casa a cada dois meses e ali tratem os focos dos mosquito e façam campanhas de educação. Até hoje, desde o início do ano, a minha casa, no Rio, só foi visitada uma vez por agentes", diz o epidemiologista Roberto Medronho, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No caso dos lugares que oferecem mais facilidade de reprodução ao mosquito da dengue, como ferros-velhos e cemitérios, a inspeção deveria ser feita a cada 15 dias. "Isso não acontece", continua Medronho. "Os agentes de saúde são contratados de forma precária, sem estabilidade no emprego, trabalham em péssimas condições." Ao fazer essa constatação, o médico da UFRJ critica as prefeituras, que são, no poder público, as encarregadas de executar os programas de combate ao mosquito da dengue. Os Estados coordenam os trabalhos dos municípios e ditam algumas normas. O Ministério da Saúde, além de também elaborar normas, tem como papel enviar o dinheiro que será aplicado pelas prefeituras. O clínico Eraldo Bulhões Martins, diretor do Sindicato dos Médicos do Rio, diz que o Ministério da Saúde tem culpa por fazer campanhas "equivocadas". A publicidade federal, segundo ele, limita-se a dizer que as pessoas não podem deixar água em pneus e garrafas. "Claro que não se pode desconsiderar isso, mas o principal problema são as lajes. Se você olhar por aí, em qualquer lugar do Brasil, vai reparar que as casas não têm telhas. A água das chuvas fica acumulada nas lajes, o ambiente propício para a reprodução do mosquito. Mas o governo não está preocupado", diz. Ele também critica a campanha de prevenção da dengue durante os Jogos Panamericanos do Rio, em julho: "Divulgou mais o Pan do que a dengue".