Papa elogia dedicação de d. Aloísio à Igreja

Elder Ogliari - O Estado de S.Paulo

Corpo do arcebispo será velado até quinta-feira

Cerca de 250 pessoas assinaram o livro de presenças no segundo dia de velório do cardeal d. Aloísio Lorscheider, na cripta da catedral metropolitana de Porto Alegre, ontem. O ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) (1971-1978) e arcebispo emérito de Aparecida (SP), morto no domingo de falência de múltiplos órgãos, aos 83 anos, foi homenageado por familiares, religiosos e leigos ligados à Igreja Católica e também por políticos de diversas tendências.Uma das seis coroas de flores colocadas no salão foi enviada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua mulher, Marisa, com a mensagem "Com carinho e reconhecimento".O prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PPS), foi ao velório ao amanhecer e lembrou da luta de d. Aloísio pela anistia, em 1979, dizendo que "sua voz jamais se calou num período em que o silêncio era garantia de vida". O ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro das Cidades Olívio Dutra esteve na cripta no final da manhã, e destacou "o exemplo de paciência, fé, firmeza e compreensão na vida daqui e de outra dimensão" deixado pelo cardeal. "Ele foi sempre solidário e militante das causas do ser humano e da liberdade", afirmou.Como exemplo das ações de d. Aloísio nos bastidores, Dutra citou as gestões que o então arcebispo de Fortaleza fez quando da primeira visita de João Paulo II ao Brasil, em 1980, para que o papa recebesse uma comissão de sindicalistas. Sob restrições do cardeal Paul Marcinkus, organizador da viagem, o encontro foi realizado no subsolo da Catedral da Sé, em São Paulo, distante da imprensa.Logo depois, o ministro da Justiça, Tarso Genro, também chegou ao velório. "Vim por afeto e respeito pessoal a d. Aloísio, como cidadão e ministro", explicou. Segundo Tarso, o cardeal sempre considerava antes os humildes, os pobres, os oprimidos e os excluídos em qualquer atitude que tivesse de tomar e sabia enfrentar os poderosos com "doçura franciscana"."Ele foi uma referência na luta pela dignificação política do povo brasileiro, pelo restabelecimento das liberdades democráticas, e sempre enfrentou os autoritários e opressores com calma, tranqüilidade, diálogo e um sorriso nos lábios, mas com muita firmeza", elogiou.Durante o dia também estiveram no local os senadores Pedro Simon (PMDB) e Sérgio Zambiasi (PTB). Frades franciscanos, duas irmãs, um cunhado e sobrinhos do cardeal se revezaram na vigília em nome da família. "Estávamos preparados para este momento porque a saúde dele era frágil", disse o sobrinho Baldur Ricardo Lorscheider, 39 anos, demonstrando serenidade, como os demais. "Ele nos deixou o exemplo da humildade." Entre os visitantes estavam religiosos de diversas ordens e leigos ligados às pastorais da Igreja Católica.O corpo de d. Aloísio fica na cripta até a noite de hoje, quando será levado à nave central da Catedral Metropolitana de Porto Alegre. Amanhã, o cardeal será homenageado com duas missas, às 9h30 e às 18 horas. À noite, o corpo será trasladado para a capela do bairro Daltro Filho, em Imigrante, a 123 quilômetros de Porto Alegre. O enterro está previsto para as 17 horas de quinta-feira no cemitério dos franciscanos, ao lado do Seminário São Boaventura, onde d. Aloísio, ainda com o nome de batismo de Leo Arlindo Lorscheider, iniciou seus estudos religiosos, na década de 40 do século passado.HOMENAGEM DO PAPAO papa Bento XVI enviou uma mensagem de pêsames pela morte de d. Aloísio, de quem destacou sua "constante e generosa dedicação" à Igreja. Após receber com "tristeza" a notícia, Bento XVI enviou duas mensagens, uma ao arcebispo de Porto Alegre, Dadeus Grings, e outra ao ministro-geral da ordem dos frades menores - entidade à qual o brasileiro pertencia -, o espanhol José Rodríguez Carballo.Nos telegramas, o papa lembra a "generosa e constante dedicação" de Lorscheider nos diferentes cargos que teve em sua vida, entre eles arcebispo de Fortaleza e de Aparecida e presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam).O presidente da Conferência Episcopal Alemã, bispo Franz Grave, manifestou ontem suas condolências à Igreja no Brasil e a seus fiéis pela morte de d. Aloísio. Segundo ele, d. Aloísio, "amigo de muitos anos, marcou com sua atuação o caminho da Igreja".