Países pedem reforma no sistema de alerta da OMS

Jamil Chade, GENEBRA - O Estado de S.Paulo

Organização declara pandemia quando há transmissão em pelo menos 2 regiões, sem considerar total de casos

Ao mesmo tempo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) é pressionada para evitar declarar uma pandemia de gripe suína, governos pedem uma reforma no sistema de alerta da entidade. Para que uma pandemia seja declarada deve existir transmissão sustentável da doença em pelo menos duas regiões. A primeira foi a América do Norte. Agora, atenções médicas e políticas miram a Europa. Os últimos dias deixaram claro que a OMS não está tomando medidas apenas com base científica, mas considera também sensibilidades políticas e econômicas de governos. Fontes da cúpula da entidade revelaram ao Estado que o Reino Unido e a Espanha se recusaram a passar todos os documentos científicos de seus casos, que mostrariam os padrões de transmissão à OMS. O embate político põe em questão o sistema criado há dois anos pela OMS para alertar o mundo sobre uma pandemia. O sistema foi negociado por anos entre governos, mas até o mês passado não havia sido utilizado. Agora, governos e OMS se dão conta de que ele tem sérias falhas. Diante do descobrimento do novo vírus, a OMS passou em poucos dias de um nível de alerta 3 para 5, em escala de 1 a 6. A entidade chegou a declarar que uma pandemia era "iminente e inevitável". Há quatro dias, o número de casos e o padrão da transmissão seriam suficientes para declarar pandemia. Mas a diretora da entidade, Margaret Chan, foi alertada por diplomatas europeus para não subir o alerta. No Reino Unido, pessoas que não foram ao México estariam transmitindo a doença. Thomas Abraham, porta-voz da OMS, admitiu que existem mais de 400 casos sendo verificados no país. Mas o governo não reconhece os números como confirmados. A OMS só contabiliza casos reconhecidos por governos.Outro problema: o sistema não indica se a pandemia é severa ou não. Ou seja, o vírus pode estar espalhado, mas ele pode ser suave. Diante da constatação, a OMS mudou o discurso. "Os níveis de alerta são apenas para permitir que os governos se preparem", disse Abraham. Outra constatação na OMS é de que o sistema para detectar surtos fracassou: quando a notícia chegou à entidade, o vírus já havia se espalhado. O embate promete ser intenso daqui a duas semanas, quando ministros de todo o mundo se reúnem em Genebra para a Assembleia Mundial da Saúde. A agenda foi reduzida, assim como os dias de encontro. O governo do México promete levar ao debate a questão de como pessoas de países afetados são tratadas no exterior. Alfonso de Alba, embaixador do México na ONU, acusou a China de discriminação por ter colocado em quarentena mexicanos sem sintomas que nem viviam mais em seu país natal. As restrições chinesas foram impostas também a canadenses e americanos.