País vive onda de boatos sobre a doença

Daniela Pastrana - O Estado de S.Paulo

Na internet circulam até ofertas de compra da ?cura? da gripe por 500 pesos, aproximadamente R$ 85

O título da mensagem do correio eletrônico diz: "Um outro ponto de vista da gripe que estamos vivendo." E estabelece uma relação entre a reunião do G-7, no início de abril, o encontro de Barack Obama e Felipe Calderón (16 e 17 de abril), a declaração de emergência sanitária no México, uma semana mais tarde, e o anúncio de um laboratório farmacêutico de que pretende investir 100 milhões numa nova fábrica de vacinas. E conclui: a epidemia de gripe foi "criada" para salvar a indústria farmacêutica de seus problemas financeiros. "Se os conflitos e as guerras são criados para vender armas, não será possível gerar vírus e doenças para vender medicamentos?", questiona outro e-mail. Essas mensagens rodaram pelos computadores dos mexicanos e conseguiram impor-se à versão inicial - segundo a qual a gripe era uma cortina de fumaça com o objetivo de fortalecer o governo de Felipe Calderón. Os mexicanos parecem dispostos a acreditar em qualquer coisa, até nas ofertas de compra pela internet da "cura" da gripe por 500 pesos (cerca de R$ 83). A voz do povo garante que há um número "muito" maior de mortos do que os que são oficialmente reconhecidos, mas também que os mortos não existem porque ninguém os conhece; que as máscaras não servem para nada; que o contágio se dá tocando o rosto com as mãos. A divulgação de nome e endereço de uma mulher de 39 anos do Estado de Oaxaca, no sul do país, considerada a primeira vítima fatal de gripe humana e em cujo corpo - segundo as autoridades - teria ocorrido a mutação do vírus, quase provocou uma tragédia. "Toda a família está sendo considerada empesteada, está em quarentena, porque as pessoas do povoado não deixam ninguém sair da casa", conta um repórter local. Oficialmente, os mortos pelo vírus são 16 (a OMS confirma 7), em um país de 110 milhões de habitantes, que registra mais de 10 mil assassinatos por obra do crime organizado durante o atual governo - somente em abril, foram 500. "Você tem mais probabilidade de morrer atropelado do que de gripe", diz na televisão Gerardo Fernández Noroña, um político radical. "As medidas são exageradas, mesmo que se trate de uma pandemia. Há anos temos uma pandemia de HIV e não vejo soldados distribuindo milhões de preservativos na rua", afirma. No jornal Reforma, os repórteres receberam a instrução de fazer a cobertura desde suas próprias casas (salvo para alguns plantões) e foram proibidos de se apresentar na redação. Na TV Azteca, ninguém pode entrar sem máscara. A emissora adotou a proibição de beijos e carinhos nas telenovelas, como já fez a Televisa. Os sets de televisão estão tão vazios quanto as ruas da cidade.