País convive com seqüelas da pólio

Fernanda Aranda - O Estado de S.Paulo

Doença foi erradicada, mas ainda há pessoas que sofrem do mal e têm dificuldade para ter atendimento

Apesar de o Brasil ter erradicado a paralisia infantil oficialmente em 1994, o País ainda convive com as conseqüências graves da doença, além do risco de sua reintrodução, caso a adesão às campanhas de vacinação continue caindo. Segundo dados do Ministério da Saúde, nos últimos 12 anos mais de 200 pessoas morreram em decorrência de seqüelas da pólio.   Veja os locais de vacinação Segundo o diretor clínico da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), Antônio Carlos Fernandes, além da preocupação com a volta da doença - e dos óbitos registrados -, ainda há demanda de pessoas que sofrem do mal e têm dificuldades para obter atendimento. "Em apenas uma das nossas oito unidades, são 900 pessoas que aguardam consultas e outras 350 na fila de espera para cirurgia. Todas infectadas pelo vírus da pólio no passado", afirmou Fernandes. De acordo com o Comitê Paraolímpico Brasileiro, cerca de um terço dos 239 atletas nacionais que competiram na última edição dos Jogos Parapan-Americano tinham alguma seqüela de poliomielite. É o caso do nadador paulista Joon Sok Seo, hoje com 41 anos. "Já cheguei a ficar com todo corpo, do pescoço para baixo, paralisado por causa da doença. Melhorei fazendo esporte e fisioterapia. Hoje sou o maior incentivador da vacinação. A forma mais segura de evitar uma doença grave, que quando não mata, marca a pessoa para o resto da vida." Demonstrar que a doença é real e ainda mata faz parte da estratégia das autoridades do setor de saúde para melhorar as coberturas vacinais, que têm registrado declínio nos últimos anos. Hoje, o Ministério da Saúde, secretarias estaduais e municipais realizam a primeira etapa da campanha nacional de vacinação contra a pólio, cujo objetivo é imunizar 15 milhões de crianças menores de cinco anos, ou 95% da população dessa faixa etária. Na última campanha, 17 Estados não atingiram a meta de 95% de imunização. Além disso, o País tem registrado coberturas pouco homogêneas - sobram locais com baixas coberturas e com grande risco de reintrodução da doença, uma vez que o vírus da poliomielite ainda circula em outras partes do mundo. Em quatro países a doença é endêmica: Afeganistão, Índia, Nigéria e Paquistão. Além desses, outros nove têm casos confirmados de poliomielite importados: Angola, Camarões, Chade, República Democrática do Congo, Sudão, Myanmar, Níger, Somália e Nepal. Segundo o ministério, em 2008, até 3 de junho, foram confirmados 522 casos de poliomielite no mundo, contra 190 no mesmo período de 2007. "A doença está erradicada do Brasil, mas não extinta do mundo", destaca a coordenadora de imunização do Estado de São Paulo, Helena Sato. EM DEFESA DA VACINA Doentes que ainda sofrem com as seqüelas da paralisia infantil incentivam os pais a levarem seus filhos a postos de vacinação hoje. "Saber que, atualmente, basta receber uma simples gotinha para evitar toda a dificuldade que eu enfrentei para fazer as coisas mais triviais, como ir à escola, ao banco ou brincar no parque, faz com que eu implore aos pais que levem seus filhos para tomar vacina", diz Maria Amélia dos Santos, que hoje dirige a Associação Brasileira de Síndrome Pós Pólio. Maria Amélia contraiu a doença aos 11 meses de vida. O movimento das duas pernas ficou comprometido e a conquista dos primeiros passos só foi possível após 14 cirurgias e inúmeras sessões de fisioterapia. As seqüelas foram inevitáveis e até hoje exibem as marcas no caminhar.