País ainda faz pouco uso de embriões

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

Dois anos após regulamentação da Lei de Biossegurança, pesquisadores enfrentam dificuldades para avançar

Estudos revolucionários publicados na semana passada deixaram claro como o Brasil está atrasado nas pesquisas com células-tronco embrionárias. Enquanto cientistas americanos e japoneses já descobrem alternativas ao uso de embriões, reprogramando células adultas para se comportarem como células indiferenciadas, brasileiros ainda tentam replicar o que já foi feito dez anos atrás: derivar sua primeira linhagem de células-tronco de embriões humanos. Uma oportunidade que só se abriu para a ciência brasileira em 2005, com a aprovação da Lei da Biossegurança, que liberou as pesquisas com embriões humanos no País. No aniversário de dois anos da regulamentação da lei - 22 de novembro -, um levantamento do Estado mostra que as dificuldades ainda são muitas. E os pesquisadores são poucos. Sem histórico de pesquisa na área, faltam cientistas capacitados para trabalhar com essas células no País. De um total de 45 projetos que receberam financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), para trabalhar com células-tronco, apenas 6 envolvem o uso de células embrionárias. E apenas um tenta derivar linhagens de embriões congelados - que foi a grande "revolução" permitida pela lei. Outros trabalham com linhagens importadas - o que não era proibido, ao menos explicitamente. Mesmo nesses casos, os pesquisadores sentem-se amarrados por uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF), que ameaça proibir novamente as pesquisas - até mesmo as que são feitas com células importadas. Sem falar dos entraves clássicos à ciência brasileira, como a dificuldade para importação de reagentes e equipamentos básicos de laboratório, que atrasa qualquer pesquisa no País. A lei abriu a porta para os cientistas, mas poucos ainda se sentem seguros para atravessá-la. "Está todo mundo em compasso de espera, aguardando uma posição do Supremo", diz Antonio Carlos Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. REVOLUÇÃO Enquanto isso, pesquisadores nos países desenvolvidos avançam em velocidade espantosa. Dois trabalhos publicados nos últimos dias por equipes do Japão e dos Estados Unidos abrem a perspectiva de que, no futuro, seja possível produzir células-tronco pluripotentes (equivalentes às embrionárias) a partir das células da pele de um paciente, dispensando o uso de embriões - e as polêmicas decorrentes dele. A rapidez com que se chegou a esse resultado, 15 meses após a publicação dos primeiros experimentos com camundongos, surpreendeu até os especialistas. E deixou a impressão de que o Brasil pode já ter perdido de vez o bonde das células embrionárias. Mas não, segundo cientistas ouvidos pelo Estado. "A ciência nunca perde o bonde", diz o presidente do CNPq, Marco Antonio Zago. "O bonde está sempre passando; a qualquer momento que você conseguir embarcar, tem chance de chegar ao ponto final."