Pacientes com suspeita de dengue lotam hospital de campanha no Rio

Pedro Dantas, RIO - O Estado de S.Paulo

Aeronáutica suspende distribuição de senha antes do meio-dia; ministério quer postos funcionando 24 horas

A grande procura de pacientes com suspeita de dengue provocou o esgotamento dos leitos na rede pública do Rio e a antecipação do horário de fechamento da maior estrutura de apoio montada pelas Forças Armadas já no segundo dia de atendimento. O Estado anunciou o aluguel de cem leitos na Santa Casa da Misericórdia, no Centro do Rio, e o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, pediu ontem à prefeitura que "pelo menos a metade" dos postos de saúde do município fiquem abertos 24 horas para amenizar a "carência de leitos". Acompanhe o avanço da dengue A Defensoria Pública da União entrará com ação civil pública exigindo a abertura dos postos no final de semana. Já os governos estadual e municipal do Rio têm 48 horas para comprovar o pronto-atendimento de pessoas com suspeita de dengue ou podem ter bloqueadas as verbas destinadas às políticas públicas não-prioritárias. A decisão foi da juíza da 10ª Vara de Fazenda Pública, Anna Eliza Duarte Diab Jorge, a pedido do Ministério Público, para garantir o cumprimento de liminar expedida na sexta e que determina que os doentes sejam encaminhados para a rede particular caso o SUS não consiga atendê-los.Na capital, segundo a Secretaria Municipal da Saúde, das 147 unidades de saúde, 21 ficam abertas 24 horas. O prefeito Cesar Maia rebateu e disse que o município dispõe "desde janeiro" de 130 postos para hidratação. O prefeito também prometeu a inauguração do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, conhecido como Hospital de Acari, cuja construção terminou em 2004, para esta semana. A abertura da unidade ofereceria 298 leitos. Ontem, o governador Cabral participou da inauguração de 94 leitos de enfermaria pediátrica no Hospital Anchieta, no Caju.ALTA DEMANDAMenos de 48 horas após a inauguração, o hospital de campanha da Aeronáutica, na Barra da Tijuca, zona oeste, não suportou ontem a grande procura e encerrou a distribuição de senhas antes do meio-dia, quando a capacidade de 400 atendimentos foi esgotada. "Até as 10h30, já tínhamos distribuído 217 senhas, ou seja, mais da metade de nossa capacidade. Encerramos a distribuição antes do meio-dia para evitar a degradação da qualidade do atendimento", disse o tenente-coronel Henry Munhoz, responsável pela comunicação da Aeronáutica.Em comparação com o mesmo horário do primeiro dia de funcionamento, nas primeiras horas da manhã o hospital recebeu o triplo de pacientes. Durante todo o dia de ontem, 407 pessoas foram atendidas e 267 casos de dengue foram clinicamente constatados, sendo 47 em crianças. Segundo a Aeronáutica, um fator que prejudicou o atendimento foi a ocupação dos leitos de hidratação por pessoas que, por falta de vagas na rede pública, ficaram no hospital da Aeronáutica. Nove Pacientes passaram a noite de segunda para terça-feira no local e ontem o número de "internados" subiu para 13, que foram transferidos após a intervenção do secretário estadual da Saúde, Sérgio Cortês.Cansada da espera nos hospitais particulares, a classe média também procurou o hospital de campanha. O administrador de empresas Marcos Calil, de 41 anos, evitou as filas nos hospitais particulares. "Tenho plano de saúde, mas fiquei assustado com o relato de amigos, que esperaram até cinco horas em clínicas particulares. Sabia que aqui o atendimento era melhor e não me decepcionei."Ontem, no Hospital de Campanha da Marinha, que funciona só como apoio para o Hospital da Posse, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, foram realizados 412 atendimentos, sendo 242 de pacientes adultos e 172 de crianças. Nos dois dias, os médicos da Marinha atenderam 638 pessoas e constataram 320 casos de dengue, sendo quatro de emergência. A unidade do Exército, que funciona exclusivamente para hidratação dos pacientes do Hospital Carlos Chagas, em Deodoro, zona oeste, atendeu 140 pessoas.PORTA DE ENTRADAO secretário-adjunto de Vigilância do Ministério da Saúde, Fabiano Pimenta, defendeu ontem a abertura das unidades básicas no Rio durante os fins de semana. A medida, disse ele, é essencial para reduzir a alta demanda nos hospitais. "Se o paciente encontra fechada a porta de entrada do sistema, que é o posto de saúde, ele vai para o hospital." De acordo com o secretário, a hidratação geralmente demora seis horas. "Se um posto fecha às 17 horas, ele só vai aceitar fazer hidratação de pacientes que chegarem até as 11."Os milhares de casos suspeitos de dengue registrados em Angra dos Reis, no litoral fluminense, colocaram o município de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, em estado de atenção. "Estamos muito preocupados com a dengue, já que agora está mais próxima", disse o secretário da Saúde do município, Clingel Frota. Em 2007, Ubatuba registrou cerca de 4 mil casos de dengue.O infectologista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Luiz Jacintho da Silva considera positivas as medidas emergenciais do governo do Rio, com a ressalva de que "é como colocar o trinco depois que o ladrão foi embora". COLABORARAM LÍGIA FORMENTI, ALEXANDRE GONÇALVES E CLARISSA THOMÉ