Os remédios absurdos na gripe de 1918

- O Estado de S.Paulo

Páginas do ?Estado? revelam caos provocado pela influenza espanhola

Contra a Grippe Hespanhola, especulava-se, uma alternativa era o Extracto Tonsilar do Instituto Butantan - também fonte de outros medicamentos para enfrentar a doença, como o Soro Hemostatico, o Extracto Suprarenal, o Soro Normal de Cavallo e o Óleo Canphorado. Mas também se recomendavam produtos de outros laboratórios - por exemplo, a Água Purgativa Queiroz ou as Pílulas Sudoríficas de Luiz Carlos, estas "como preservativo e como agente curativo". E as Balas Peitoraes? Vendidas na Drogaria Ypiranga, eram, dizia-se, batata contra "influenza ou grippe, constipação, tosse, bronchite, dôr de garganta, rouquidão, catarrho". Podia-se ainda enfrentar a doença com Salkinol nº 1; "havendo tosse", usava-se Salkinol nº 2. E os mais animados poderiam recorrer à Canninha de O "com limão, mais conhecida como batida". No fim de 1918, os anúncios - reclames, como se chamavam - de supostos remédios contra a gripe espanhola disputavam espaço, nas páginas do Estado, com notas de falecimento de suas vítimas, notícias do avanço da epidemia e informações sobre a Primeira Guerra Mundial. A eficácia das drogas anunciadas, entre elas produtos tradicionais, como o Biotonico Fontoura, a Água Ingleza de Freire d?Aguiar e a Emulsão de Scott, era duvidosa. Mas a explosão de anúncios ilustrava o desespero da população e a desorientação dos médicos diante da situação nova, alimentando o medo, a publicidade e o palpite. O quadro no noticiário misturava internações, mortes e mobilizações contra "a epidemia reinante" - às vezes, não se chamava pelo nome a doença, sinônimo de morte. "Hontem foram notificados ao Serviço Sanitario 2.252 casos novos que, sommados aos 779 attendidos pela Cruz Vermelha, perfazem 3.331", dizia o texto A Marcha da Epidemia, na edição do Estado de 28 de outubro de 1918. "Convalescentes, 192; curados, 49; óbitos, 8." Segundo o texto, em apenas 12 dias, de 16 a 27 de outubro, foram notificados 14.650 novos doentes - média de 1.220 diários. Na véspera, na coluna Notícias Diversas, o jornal, engajado na coleta de doações para os "necessitados", informava: "Registrou-se hontem um sensível augmento do número de casos de influenza espanhola nesta capital". Foram 2.600 notificações - em um só dia. Sinal de que a epidemia atingia o próprio jornal, em 29 de outubro uma nota do Estado avisava: "O noticiario relativo á epidemia vai-se tornando demasiado extenso. O pessoal desta redacção, como o das nossas officinas, está diminuído, e o trabalho que nos dão as subscrições, a colheita de notas e a enorme correspondência da capital e de fóra excede não só a capacidade do nosso esforço, como excederia o espaço de que podemos dispor." O texto pedia que notícias e comunicados enviados fossem sintéticos e restritos ao que interessasse ao público. "É preciso notar, além do mais, que o desenvolvimento excessivo deste noticiario, levando a confusão aos espíritos, só pode prejudicar o grande objectivo que devemos ter na mira neste momento: dar cerrado combate ao mal dominante." O jornal também mostrava como outras empresas e serviços foram atingidos pela gripe espanhola. Em 25 de outubro, a Directoria da Companhia Telephonica publicou anúncio, datado do dia 23, avisando: "É nosso dever communicar ao publico que algumas das nossas telephonistas se acham fóra de serviço, devido a epidemia reinante. Isso significa que as telephonistas restantes são obrigadas a um trabalho muito maior para attender ao serviço. Vimos, por isso, pedir ao publico que durante os proximos dias, só use o serviço telephonico em caso de necessidade." A alfaiataria Au Sport, aparentamente assustada com a fuga de clientes, avisava: "4143 central é o nosso telephone! Em vista da epidemia reinante e difficuldades atuaes, avisamos a nossa distinta freguezia, a quem não seja possível chegar ao nosso estabelecimento, que attendemos a qualquer chamado a domicilio, a partir das 7 da manhan ás 7 da noite (...)" Já a Companhia Nacional de Tecidos de Juta, segundo seu presidente, Jorge Street, afirmou ao Estado em 27 de outubro que, assim que começou a epidemia, suspendeu o funcionamento de escolas das fábricas e distribuiu 3 mil latinhas de vaselina mentolada aos trabalhadores. O aumento do número de casos, porém, obrigou a instalação de postos médicos permanentes. A pandemia de 1918, que completou 90 anos em 2008, foi cercada de crendices. Chegou-se a dizer que resultava dos cadáveres insepultos do conflito entre os Aliados e os Impérios Centrais, que matou cerca de 10 a 20 milhões de vítimas. Foi chamada de espanhola porque se imaginou que tivesse origem na Espanha - mais uma crença aparentemente sem fundamento. "Os outros países estavam na Primeira Guerra, e a Espanha foi o primeiro país a informar os casos", disse o virologista Fernando Motta, do Laboratório de Vírus Respiratório da Fiocruz, comentando o nonagésimo aniversário da epidemia.