ONG e Inpe obtêm resultado diferente

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

Com base nos mesmos dados gerados por instituto, pesquisador do Imazon afirma que chega a outra estatística

Não são apenas prefeitos, governadores e o presidente da República que cobram dados mais precisos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento na Amazônia. Ambientalistas e pesquisadores ligados a organizações não-governamentais também chamam atenção para a falta de algumas informações básicas nos relatórios publicados pelo instituto e pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).Apesar de não duvidar dos dados do Inpe, o pesquisador Carlos Souza Jr., do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), confessa que não consegue replicar as estatísticas do instituto. "Mesmo baixando os dados do Deter, não conseguimos chegar aos mesmos resultados", disse Souza. "Seria importante que, além de apresentar os resultados, eles mostrassem como as estatísticas foram geradas."Souza é um dos responsáveis pelo Serviço de Alerta de Desmatamento (SAD), um boletim mensal produzido pelo Imazon, com sede em Belém, no Pará, e pelo Instituto Centro de Vida (ICV), em Cuiabá, Mato Grosso. O SAD utiliza como matéria-prima as mesmas imagens de satélite usadas pelo sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe, mas produz resultados diferentes, por causa de diferenças na metodologia de análise dos dois programas.A dúvida, segundo Souza, é que, mesmo quando ele usa as referências geográficas (polígonos) das áreas já identificadas como desmatadas pelo Inpe, não consegue chegar às mesmas estatísticas. "O Inpe deu um grande salto em transparência nos últimos anos, principalmente na gestão do Gilberto Câmara (atual diretor), mas é algo que ainda pode ser melhorado", disse. "Não está claro para a sociedade como o Inpe chega a esses cálculos."A confiabilidade dos dados do Inpe vem sendo questionada por governadores e prefeitos da Amazônia - principalmente de Mato Grosso - por causa de dados errados publicados no ano passado. Câmara garante que os números atualizados, divulgados na semana passada, estão certos. Os dados mostram uma aceleração acentuada do desmatamento nos meses de novembro e dezembro, o que levou o governo a impor medidas duras de controle em vários municípios.A mesma tendência aparece nos dados do Imazon, ainda que com uma distribuição temporal e geográfica diferente. O Inpe detectou mais desmatamento em Mato Grosso. O Imazon, no Pará.O Inpe não divulgou uma comparação com os dados do Deter de 2006, o que permitiria estimar a evolução do desmatamento ano a ano.ANO DE RISCOMuito antes da divulgação do relatório do Deter, o governo já considerava que 2008 seria um ano de alto risco para a Amazônia, por causa do reaquecimento dos mercados internacionais de soja e carne e das eleições municipais.Segundo o Inpe, 3.235 km² de floresta foram destruídos entre agosto e dezembro de 2007. Essa foi a área detectada diretamente pelas imagens do Deter, que só "enxerga" desmates grandes, acima de 25 hectares. Com base nisso, o Inpe estima que o desmatamento real no período possa ter chegado a 7 mil km².Estima-se que o Deter enxerga entre 40% e 60% do desmate total. As áreas menores só são detectadas pelo Prodes, um sistema de melhor resolução, porém mais lento."Fazemos o pré-processamento (das imagens) e, a seguir, a interpretação visual por um grupo de intérpretes com treinamento específico", informou o Inpe ao Estado. "O resultado é validado e consolidado pelos especialistas do Inpe com grande experiência. As metodologias do Inpe e do Imazon são distintas. Nossa confiança no Deter decorre de validação feita em anos anteriores, após comparar seus resultados com o Prodes."Roberto Smeraldi, da ONG Amigos da Terra, cobra também mais transparência na divulgação das estatísticas de desmatamento por município. Os dados podem ser obtidos online, mas não estão consolidados. "Sem isso fica muito difícil fazer qualquer análise mais detalhada", disse.