Obama age de olho na China

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON - O Estado de S.Paulo

Medidas climáticas são modestas, mas já visam liderança na questão

O novo presidente americano, Barack Obama, começou a reverter nesta semana oito anos de políticas adotadas pelo governo Bush e execradas por ambientalistas. Deu passos importantes, mas considerados ainda não muito ousados, esperando primeiro conseguir apoio bipartidário para depois adotar medidas mais rigorosas. Enquanto isso, já mira os próximos alvos: o governo chinês e as termelétricas. Leia mais reportagens sobre sustentabilidade Veja infográfico sobre as emissões de carbono Reveja os especiais de 2008 sobre ambiente Obama autorizou os governos estaduais a adotarem limites mais rígidos para emissão de poluentes por carros e caminhões e assinou uma ordem executiva para que o Departamento de Transportes adote regras mais duras de economia de combustível para carros e caminhões leves até 2011. Essas duas medidas foram bloqueadas pelo ex-presidente George W. Bush durante anos por causa do lobby da indústria automobilística. "Os dias de Washington fazer corpo mole chegaram ao fim", disse o recém-empossado presidente, ao anunciar as novas políticas ambientais na última segunda-feira. "Minha administração não negará os fatos, mas será guiada por eles", disse, alfinetando o governo Bush, que passou anos negando a influência humana sobre o aquecimento do planeta e chegou até mesmo a censurar dados científicos que contrariavam os interesses industriais. Obama abriu caminho para que a Califórnia e 13 outros Estados estabeleçam limites mais rígidos para emissão de poluentes por veículos. E o Departamento de Transportes deve aumentar em 40% a milhagem mínima por litro de combustível exigida dos veículos até 2011. Segundo Joseph Romm, pesquisador sênior do Center for American Progress, a próxima medida de Obama deve ser um veto à construção de usinas termelétricas a carvão "sujas", que não tenham um mecanismo de captura de gás carbônico com vistas a reduzir as emissões. O governo incluiu bilhões de dólares para energia renovável no projeto de estímulo à economia que está tramitando no Congresso. No projeto, há subsídios para energia renovável, verbas para aumentar eficiência energética, modernizar a rede elétrica e fazer isolamento térmico de casas. Espera-se a seguir a definição de uma meta mais ambiciosa para uso de energia renovável, com estabelecimento de datas para que os estados atinjam parâmetros mínimos de uso de energia eólica, solar e biomassa. No âmbito internacional, a missão é espinhosa. A expectativa é de que Obama se sente para negociar com a China uma meta de redução de emissões, ao mesmo tempo em que estará sendo discutida a Lei de Mudança Climática no Congresso. É nesta Lei Climática, que não deve ser aprovada pelo Congresso antes do final do ano, que serão determinadas metas de redução de emissões para a mitigação do aquecimento global. "É dever moral dos EUA aceitarem metas de redução de emissão, porque o país é o maior poluidor (histórico), levando-se em conta o efeito cumulativo. Mas se a China, que é atualmente o maior poluidor, não aceitar limitações, o efeito prático sobre a redução de aquecimento será bastante limitado", disse Romm ao Estado. Para Timothy E. Wirth, presidente da Fundação das Nações Unidas, que apoia as causas e atividades da ONU, os EUA têm de assumir agora a liderança das negociações que devem levar a um novo acordo climático global no final do ano na conferência do clima em Copenhagen e que vai substituir o Protocolo de Kyoto a partir de 2013. "E esse engajamento tem de começar com a China. Os dois países que são os maiores emissores têm de encontrar um caminho para andarem juntos para alcançar um acordo global viável", afirmou With na revista científica Nature na semana que antecedeu a posse. Naquela edição, o periódico reuniu vários especialistas que deram sugestões a Obama e fizeram um balanço do mau legado deixado por Bush para o clima. METAS MODESTAS Segundo Romm, "os Estados Unidos vão agir, não há dúvidas". Mas muitos dizem que os objetivos de corte das emissões são muito modestos. "A meta do presidente Obama de reduzir as emissões até 2020 para os níveis de 1990 não é suficiente para nos poupar dos piores efeitos da mudança climática", disse recentemente o pesquisador Rajendra Pachauri, presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). A União Europeia, por exemplo, vem trabalhando com uma meta de redução de pelo menos 20% em relação aos níveis de 1990. Mesmo assim, a prioridade que Obama está dando ao tema ambiental vem sendo elogiada principalmente pelo contraste com o comportamento do governo anterior. Christine Todd Whitman, que coordenou a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês), conta em texto na Nature que apesar de ter ouvido de Bush que a EPA representaria o governo na questão ambiental, na prática não funcionava assim. Ela sugeriu que Obama tenha muito claro no governo qual agência vai determinar a política ambiental, se a EPA ou o Conselho sobre Qualidade Ambiental (CEQ). "Muitas vozes acabam criando confusão." Diante desse cenário, a repercussão dos anúncios desta semana foi positiva. Ambientalistas disseram acreditar que Obama só está começando com metas mais modestas para conseguir apoio bipartidário para essas medidas, para depois, então, poder aprofundá-las. Alguns especialistas em negociações internacionais acreditam que mesmo que a China inicialmente não aceite se comprometer com metas, é possível que os EUA tentem liderar pelo exemplo. Mas isso pode não enfrentar resistência no Congresso. Afinal, a limitação nas emissões de poluentes trazem custos para as indústrias americanas, e esses gastos podem não ser bem-vindos em meio à enorme crise financeira que se abateu sobre o país. COLABOROU GIOVANA GIRARDI O PACOTE CLIMÁTICO Califórnia e outros 13 Estados foram autorizados a adotar limites mais rígidos para emissões de poluentes por carros e caminhões Foi criado o cargo de "czar da mudança climática", alto diplomata que representará o país nas negociações internacionais; o cargo será ocupado por Todd Stern, que foi assessor de Bill Clinton e é considerado progressista Até 2011, montadoras terão de fabricar carros com consumo médio de 1 litro de gasolina por 14,9 km, aumento de 40% de eficiência Promessa de que com o novo plano econômico serão criados 460 mil "empregos verdes"