O que Darwin viu no Brasil

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

Há 177 anos, o futuro autor de ?A Origem das Espécies? desembarcava no País, encantado com a floresta

"O dia transcorreu deliciosamente. Delícia, no entanto, é termo insuficiente para dar conta das emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira. (...) Para uma pessoa apaixonada pela história natural, um dia como este traz consigo uma sensação de prazer tão profunda que se tem a impressão de que jamais se poderá sentir algo assim outra vez."Assim Charles Darwin registrou sua chegada ao Brasil 177 anos atrás, em 29 de fevereiro de 1832, na mata atlântica do litoral baiano. Era a primeira vez que o jovem naturalista britânico, então com 23 anos, punha os pés em outro continente. Fazia dois meses que ele deixara o porto de Devonport (Plymouth), na Inglaterra, a bordo do H. M. S. Beagle, um navio de pesquisa da Marinha Britânica.Previa-se que a viagem levaria três anos, mas ela acabou durando quase cinco. A missão do Beagle, comandado pelo também jovem capitão Robert Fitzroy, era completar o mapeamento cartográfico da costa sul-americana, com atenção especial à Terra do Fogo, no extremo sul do continente. Darwin não tinha missão específica. Nem era o naturalista oficial da expedição, incumbência que cabia ao médico do barco, Robert McCormick. Darwin estava no Beagle como passageiro pagante, convidado para prestar companhia intelectual a Fitzroy durante o trajeto.Sem obrigações a bordo, porém, o naturalista teve tempo de sobra para fazer o que mais gostava: investigar o mundo natural. Embrenhou-se pelas florestas úmidas da mata atlântica, galopou pelos pampas uruguaios, caminhou sobre as geleiras da Patagônia, escalou os Andes chilenos, observou tartarugas gigantes nas Ilhas Galápagos, visitou a Austrália, a Ásia e a África. Fez milhares de anotações, coletou insetos, plantas, aves, mamíferos, conchas, ossos e rochas por todos os lugares que passou - cada um dos quais, anos mais tarde, se encaixaria como uma peça no quebra-cabeça que ele montaria para explicar o que considerava ser "o maior de todos os mistérios": a origem das espécies.BAHIAO Brasil foi onde Darwin se encontrou pela primeira vez com as maravilhas biológicas do mundo tropical. O desembarque foi pela Baía de Todos os Santos, em Salvador, em fevereiro de 1832. "A vista é uma das mais belas de todos os Brasis", escreveu Darwin em seu diário. "Mas suas belezas valem nada se comparadas à vegetação."Mal colocou os pés em terra, lá foi ele se embrenhando nas matas - que, naquela época, ficavam a poucos passos da cidade. "Ele andou muito pouco para o interior e já viu uma floresta virgem, bastante preservada", conta o pesquisador Charbel El-Hani, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Hoje, a paisagem é outra. Segundo dados da organização SOS Mata Atlântica, só 7% das florestas de Salvador continuam de pé. Isso talvez explique porque Darwin, recém-saído do inverno britânico, não se queixou tanto do calor baiano. Segundo El-Hani, estima-se que a temperatura média da cidade era 8°C mais amena do que atualmente, por causa do "efeito ar-condicionado" da floresta.Nos 18 dias que passou em Salvador, Darwin coletou bichos e plantas, revoltou-se com a escravidão, ficou seis dias sem andar por causa de um corte no joelho e não escapou das travessuras do carnaval baiano.No dia 4 de março de 1832, escreveu: "Este é o primeiro dia de carnaval, mas Wickham, Sullivan e eu, nada destemidos, estávamos determinados a encarar seus perigos. Esses perigos consistem em ser alvejado sem misericórdia por bolas de cera cheias de água e sair encharcado por grandes seringas de lata. Achamos muito difícil manter nossa dignidade enquanto caminhávamos pelas ruas."RIO DE JANEIROAntes de ancorar na Bahia, o Beagle fez rápidas escalas nos arquipélagos de São Pedro e São Paulo (a mais de mil quilômetros da costa) e Fernando de Noronha. Depois, passou pelo arquipélago dos Abrolhos, no sul da Bahia, e chegou ao Rio de Janeiro em 4 de abril de 1832. Darwin ficou na cidade durante três meses, hospedado numa casa em Botafogo, aos pés do Corcovado. Fez várias expedições de coleta pela mata atlântica, incluindo uma viagem de 15 dias até Conceição de Macabu, no norte fluminense, a mais de 200 km da capital. Voltou cheio de bichos, insetos, plantas e boas histórias na bagagem. Na saída, porém, não escapou dos aborrecimentos da burocracia brasileira.Em 6 de abril, escreveu: "O dia perdeu-se com a obtenção de passaportes para minha expedição rumo ao interior. Nunca é muito agradável submeter-se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis suas pessoas, é quase intolerável. Contudo, a perspectiva de florestas selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças, lagos, roedores e aligatores fará um naturalista lamber o pó até da sola dos pés de um brasileiro."As observações finais do diário de Darwin sobre os brasileiros são pouco elogiosas, apesar das muitas experiências prazerosas que viveu no País: "Os brasileiros, até onde vai minha capacidade de julgamento, possuem somente uma pequena quantia daquelas qualidades que dão dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes e indolentes ao extremo; hospitaleiros e bem-humorados enquanto isso não lhes causar problemas (...)."A casa onde Darwin ficou hospedado no Rio ainda não foi identificada, segundo o físico e historiador da ciência Ildeu de Castro Moreira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). VOLTA AO MUNDODo Rio, Darwin seguiu com o Beagle para o Uruguai, depois Argentina, contornou o Cabo Horn, passou pelo Chile, Peru e chegou às Ilhas Galápagos, ponto mais famoso de sua odisseia, em setembro de 1835. Atravessou o Oceano Pacífico, depois o Índico, contornou o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, e pegou o caminho de casa - mas não, sem antes, fazer mais uma paradinha no Brasil.Em 1º de agosto de 1836, o Beagle aportou mais uma vez na Baía de Todos os Santos. Levantou âncora cinco dias depois, com destino à Inglaterra, mas, como o tempo estava ruim, fez mais uma parada de cinco dias no Recife.Em sua segunda visita a Salvador, o naturalista fez de novo várias caminhadas pela mata. Sua primeira impressão foi de que a cidade "tinha perdido parte de seus encantos", talvez por causa da perda de algumas "belas mangueiras", que haviam sido cortadas numa revolta de escravos (a Revolta dos Maleis). "A cidade, a princípio, não parece mais tão encantadora, mas é claro que quem mais mudou foi ele, e não a cidade", avalia Charbel El-Hani, da UFBA.De fato, Darwin já era outro homem quando voltou ao Brasil: quatro anos mais velho (27) e com experiência acumulada para muitos mais. Tanto que, depois da viagem do Beagle, nunca mais se deu ao trabalho de sair da Inglaterra para desenvolver suas pesquisas. Informações e perguntas ele tinha de sobra. Faltavam respostas. De onde vinham as espécies? Como elas se formavam? Há quanto tempo elas estavam aqui? E o que aconteceu com aquelas criaturas enormes e estranhas que apareciam fossilizadas nas rochas?Segundo Randal Keynes, tataraneto de Darwin, a exposição às florestas tropicais no Brasil foi elementar para sua compreensão da diversidade da vida. "Era algo que ele conhecia dos livros, mas que nunca tinha vivenciado diretamente", contou Keynes ao Estado. "Isso lhe deu um novo senso sobre a força criativa da natureza, que é o que dá origem à biodiversidade e que, mais tarde, se tornaria a base de sua teoria.""Aqui foi o ponto de partida fundamental", reforça Ildeu Moreira, da UFRJ. "Colocou muitas perguntas na cabeça dele." GEOLOGIAA base das respostas que Darwin procurava não estava só nos animais que ele via na floresta, mas também nas rochas e fósseis que coletava nos pontos mais áridos da viagem. Foram eles que deram a Darwin a compreensão de um elemento crucial para sua teoria: a escala de tempo geológico. Afinal, a evolução por seleção natural só funcionaria se houvesse tempo suficiente para que ela ocorresse.Em uma excursão pelos Andes, em 1835, Darwin encontrou uma floresta inteira fossilizada a 2.800 metros de altitude. Era uma floresta litorânea, que havia sido soterrada e depois elevada por forças geológicas, durante a formação da cordilheira. Darwin calculou que aquilo teria levado muitos milhões de anos. "Ele viu na hora que aquilo era uma revolução no pensamento geológico da época", diz o pesquisador Nelio Bizzo, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.Para Bizzo "os Andes foram muito mais importante para Darwin do que as Galápagos". "Sem a ideia do tempo geológico, a seleção natural é um conceito vazio", diz ele. "A geologia foi o assoalho que permitiu a Darwin pensar a evolução dos seres vivos por mecanismos naturais, sem a necessidade de fenômenos sobrenaturais."O Beagle retornou à Inglaterra em 2 de outubro de 1836. Vinte e três anos mais tarde, Darwin publicaria A Origem das Espécies. Começa assim: "Quando a bordo do H.M.S. Beagle, como naturalista, fiquei muito chocado com certos fatos sobre a distribuição dos habitantes da América do Sul e sobre as relações geológicas entre os habitantes do presente e do passado deste continente. Esses fatos pareciam para mim lançar alguma luz sobre a origem das espécies ..." O resto é uma longa história.