O primeiro astro moldado pela TV

Robert Lloyd - O Estado de S.Paulo

Jackson não apenas aparecia na televisão, mas era produto dela, não existia sem ela e nela estará para sempre

Michael Jackson foi o primeiro grande astro pop cuja carreira foi moldada pela televisão - e não meramente exibida por ela, como as de Elvis Presley e dos Beatles. Ele foi inseparável do meio. Ele é devedor da TV e a influenciou por sua vez. Em sua carreira de quatro décadas, foi muitas vezes alguém a ser ouvido, mas sempre - para o bem ou para o mal - alguém para ser visto. Uma vida de imagens voltou à lembrança na quinta-feira enquanto canais a cabo exibiam trechos de vídeos antigos e o Facebook se enchia de conexões para clipes no YouTube. Ele fez sua primeira aparição na televisão em dezembro de 1969 em The Ed Sullivan Show, por ocasião do primeiro compacto simples do Jackson 5, I Want You Back. O som desse compacto, que ficou em primeiro lugar nas paradas de sucesso no mês seguinte, é extraordinário - como o "moonwalk" (o passo de dança simulando um andar para trás, traduzido como como "caminhar na Lua") de Jackson, ele parece deformar o tempo. Mas a canção contou somente uma parte dessa história: há a dança, o funk colorido das roupas, e, sobretudo, o rosto de Michael Jackson. A canção trata de perda, mas há somente euforia em sua performance. Ele parece destemido, perspicaz, belo e no comando. O fato de ter somente 11 anos de idade não podia ser ignorado, mas acabou sendo absolutamente irrelevante. Uma banda família, na época, antes de se tornarem objeto do fascínio de tabloides - expressado num filme para TV de 1992 , The Jacksons: An American Dream - os Jacksons eram feitos para a televisão e nela apareciam com frequência no encerramento de espetáculos de variedades. Eles também se tornaram um desenho animado, como os Beatles antes deles. Com o tempo, porém, à medida que Michael Jackson ia ficando mais alto e imprevisivelmente diferente, eles pareceram declinar. As coisas estavam mudando, mas não era possível prever para onde levariam. Isso foi resolvido na noite do especial de TV de 1983, Motown 25: Yesterday, Today, and Forever, em que ele apareceu com os irmãos, mas também, durante cinco minutos, tomou conta do palco sozinho - apresentando uma canção não lançada pela Motown, Billie Jean, aproveitando a oportunidade para se refazer - ele já tinha começado a se refazer fisicamente. O aparecimento reapresentou o visual e os movimentos do vídeo da canção; ele trajava um terno enfeitado com lantejoulas, grossas luvas brancas, calças de barra levantada para expor os tornozelos e faziam suas longas pernas parecerem ainda mais compridas. A dança foi enciclopédica, cada movimento se transformando rapidamente no seguinte: giros, escolhimentos, chutes, ângulos Bob Fosse, silhuetas Gene Kelly, e, claro, o novo "moonwalk". O COMEÇO DO FIM Mas o sorriso do garoto feliz ou do intérprete sincero se fora, substituído por uma raiva suplicante que dali em diante se tornaria a nota dominante de sua autoimagem. Esse foi o começo, e foi também, de certa forma, o começo do fim. Sua influência e importância ainda cresceriam, contudo. Jackson não só rompeu a linha divisória de cor na MTV, que, tendo se moldado como uma versão visual do rádio FM branco, recusava-se a exibir vídeos de artistas negros; ele mudou o próprio vídeo musical. Ampliou sua escala com videoclipes ambiciosos envolvendo dezenas de dançarinos cuja influência ainda é vista hoje. Pode-se questionar os méritos artísticos do videoclipe de Thriller, com seu bando de zumbis, ou Beat It, com sua briga estilo West Side Story (Amor Sublime Amor, no Brasil), mas eles trouxeram valores de narrativa e produção que antes eram exclusivos de Hollywood . Quando sua estranheza pessoal começou a eclipsar sua música, quando sua carreira pública se afastou de sua vida privada, ele se tornou uma pessoa vista e não vista. Os vídeos nos mostravam uma pessoa no controle, ou ao menos afirmando-o desesperadamente; os clipes dos canais noticiosos nos mostravam um homem com uma máscara fugindo assustado. Um especial de 30º aniversário na CBS em 2001 mostrou explosões de energia, mas ele já se havia tornado fantasmagórico muito antes de morrer, pálido, magérrimo, esquelético.