O novo boom da moda

Mariana Abreu Sodré - O Estado de S.Paulo

Mulheres maduras são alvo do mercado internacional de moda, e começam a despertar algum interesse por aqui

As "boomers" - como são chamadas as mulheres nascidas entre os anos de 1946 e 1964 - estão no alvo da moda no hemisfério norte. Independentes, com alto poder aquisitivo, bem vividas e seguras de si, vêm chamando a atenção do mercado há algum tempo. Em 2005, Twiggy, modelo ícone nos anos 60, foi convidada pela marca popular britânica Marks & Spencer para ser estrela de sua campanha. Deu tão certo que foi convocada também para assinar uma coleção de roupas especialmente para sua geração. A parceria teve resultados positivos e, segundo a imprensa inglesa, valorizou em 26 % as ações da grife, que recebeu 40% a mais de consumidoras boomers em suas lojas.

Sempre esperta, a rede sueca H&M - conhecida pelo precinho em conta - lançou em 2007 a marca COS, que foca no mesmo público e oferece um leque amplo de ofertas, agradando a todas as gerações. A marca espanhola MNG não ficou para trás: no ano passado, entrou na dança das boomers, contratando a veterana atriz norte-americana Lauren Hutton para estampar seus anúncios e dar palpites de estilo. Mais um indício de que o mercado consumidor formado por mulheres na faixa dos 45 a 65 anos está valendo mesmo a pena.

Diretora do portal de tendências WGSN, Andrea Bisker afirma que investir nas boomers é aposta certa. Contudo, frisa que a jogada não é simples. "No passado, elas redefiniram o papel da juventude e, hoje, redefinem o estilo de vida da meia idade. Foram as primeiras a ter o direito ao divórcio, a conquistar papel de destaque no trabalho. São vividas, sabem das coisas e, por isso, são exigentes. Não são acomodadas, não gostam de rótulos, nem de serem classificadas por idade. Assim, um dos caminhos para atingi-las é investir no conceito chamado ageless (sem idade), adotado pela Natura, que substitui os anos de vida pelas experiências vivenciadas. Caprichar em serviço e oferecer muita qualidade e novidade é essencial."

 

Ainda segundo as pesquisas do portal - que, entre seus clientes, tem agências de publicidade e marcas de moda, beleza e tecnologia no mundo todo -, as boomers são extremamente informadas, navegam na internet e representam 1/3 das usuárias do Messenger (MSN). "Diria que é muito mais fácil atender o consumidor jovem, que se encanta pelo fast-fashion (moda passageira e barata), mas é dono de menor poder aquisitivo", completa Bisker.

Tatiana de Nigro, diretora de produto da Le Lis Blanc, domina todos os códigos para seduzir as boomers, tratadas com muita atenção pela marca. "Pensamos muito nelas quando estamos desenvolvendo um produto, mas não criamos uma linha especial para essas mulheres, porque não é necessário, já que são vanguarda por natureza", comenta, as definindo como consumidoras fiéis. Dizendo-se honrada por atender essa fatia do mercado consumidor, Tatiana acrescenta:

- Elas prezam qualidade e durabilidade. A alfaiataria deve ser impecável; os comprimentos, não muito curtos, e os decotes, trabalhados. Conhecem o próprio corpo, normalmente estão com tudo em cima e sabem como valorizá-lo. Como são bem informadas, dão bossa a tudo que vestem, de uma forma muito pessoal. Acompanham a moda, mas não são vítimas dela, pois já passaram da fase de se autoafirmarem por meio do que vestem.

Maria Helena Cabral, proprietária e estilista da loja Essencial - que, além da etiqueta própria, vende grifes internacionais, como Helmut Lang e Vivienne Westwood -, também está feliz da vida com as boomers, 50 % de sua clientela. "Sabem o que querem, não se importam com a opinião alheia e gostam de conforto e design. São donas do próprio nariz e da conta bancária, não devem satisfação a ninguém", descreve Maria Helena. "A boomer busca uma roupa atemporal, de qualidade e personalidade, e pode pagar, já que passou da fase do aperto e - na maioria das vezes - é bem sucedida. Tem vida social ativa e adora viajar", afirma. Para esse mercado, a estilista desenvolve coleções que se complementam e peças multiuso.

LIVRE ARBÍTRIO

A bailarina Heloísa Gouvea tem o perfil de uma boomer, e usa acessórios para valorizar suas produções. "Não tenho dificuldade para encontrar roupas, pois vou aos lugares certos. Não quero me vestir como uma garota de 20 anos, nem como uma senhora, pois não sou nem uma coisa nem outra. Gosto de vestidos, calças mais largas e peças bem cortadas. E uso muitos colares, brincos e pulseiras para incrementar o visual", afirma. "Compro roupas na virada de cada estação e sempre adquiro uma peça de tendência", explica Helô, dona de um corpo invejável.

Elza Estelles, gerente comercial da Vermeil, também é uma boomer. Como Heloísa, costuma viajar, gosta de sair e frequenta bons restaurantes. Na hora de se vestir, opta por peças de design e qualidade. "Só compro se for muito boa e bem feita. Prefiro ter poucas peças, mas de alta qualidade, do que o oposto", diz Elza, que não consome por impulso e, quando chega a uma loja, sabe bem o que quer. No seu guarda roupa, estão peças de marcas como Gloria Coelho, Maria Bonita, Lita Mortari, Huis Clos e Reinaldo Lourenço.

"Acho que as mulheres de 50 de hoje são as de 30 do passado, pelo comportamento e pelo papel que representam. Antigamente, uma mulher na minha idade não usava o que eu visto hoje, como calça jeans, por exemplo", opina Elza. Tal qual Heloísa, fica atenta a decotes e comprimentos, mas sem abrir mão deles. E confessa que só sente falta do cabelo comprido, que acredita não ser mais adequado a uma mulher de sua geração.

Para a alegria das boomers, a consultora de moda Manu Carvalho diz que regras já não valem mais para a moda. Hoje, acentua ela, todo mundo pode vestir o que tiver vontade. Colunista da rádio MIT FM, Manu recebeu o apelo de uma ouvinte de 50 anos: ela dizia que não encontrava mais roupas para trabalhar e, ainda, que na loja onde costumava comprar, as cinturas das calças estavam mais baixas. "Respondi que essa loja devia estar com foco mais fashion e, por isso mesmo, era hora de ela procurar uma nova ou, então, de experimentar o que a habitual estava oferecendo." Manu acredita que não há mais look certo para uma faixa etária determinada. "Tem menina de 20 anos que gosta de se vestir como senhora, e a situação oposta também."

No entanto, apesar da liberdade e democracia da moda contemporânea e do poder de compra e decisão das boomers, no Brasil, muitas marcas têm receio de falar sobre esse tipo de consumidora. Temem "envelhecer a imagem da marca", por preconceito ou miopia do mercado. O fato é que muitas "meninas de 20" admiram e espelham-se nas espertas boomers: mulheres sofisticadas, seguras, sem lenga-lenga, que trabalham por prazer e têm muitas histórias para contar.