O difícil caminho para chegar às células-tronco embrionárias

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

Cientistas brasileiros dão os primeiros passos para tentar estabelecer uma linhagem de pesquisa nacional

Essa é a história de 183 embriões humanos. Eles são os protagonistas incógnitos da primeira pesquisa para produção de células-tronco embrionárias no Brasil, acompanhada com exclusividade pelo Estado. O roteiro começa em uma clínica de fertilidade paulistana, no interior gélido de um botijão de nitrogênio líquido, e termina na bancada de um laboratório apertado, no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). O grand finale ao qual os cientistas pretendem chegar é a criação das primeiras linhagens de células-tronco embrionárias humanas do País. Coisa que já é feita nos EUA e Europa há dez anos, mas que continua inédita no Brasil. As esperanças, por enquanto, estão depositadas sobre alguns poucos pratinhos e tubinhos plásticos no laboratório da pesquisadora Lygia Pereira, da USP. A olho nu, parecem vazios. Uma rápida espiada pelo microscópio, porém, revela pequenas ilhotas de aglomerados celulares. São células humanas, extraídas de embriões congelados que foram doados para pesquisa. As primeiras coletas foram feitas no ano passado, a partir de 53 embriões selecionados da clínica Fertility, chefiada pelo médico Edson Borges. Eram todos embriões "sobressalentes", produzidos por fertilização in vitro, que acabaram não sendo aproveitados para reprodução. Quando um casal se submete a um processo de reprodução assistida, tipicamente são produzidos vários embriões - de 5 a 10 em média, dependendo da idade da paciente e do número de óvulos disponíveis. Mas apenas quatro podem ser transferidos para o útero de cada vez. Os excedentes são congelados, e muitos acabam não sendo utilizados. Nesses casos, o casal tem a opção de doá-los para a ciência. A pesquisa requer muitos embriões, pois a taxa de aproveitamento é baixa. Muitos não resistem ao descongelamento. Dos 53 embriões descongelados, só 11 chegaram ao estágio de blastocisto, do qual podem ser extraídas as células-tronco. A partir desses 11 blastocistos, 9 culturas celulares foram estabelecidas. São essas células, agora, que Lygia tenta manter vivas no laboratório. Tirá-las dos embriões foi apenas o primeiro passo. Para estabelecer uma "linhagem" de fato, como dizem os cientistas, é preciso garantir que as células continuem a se dividir perpetuamente, mantendo seu estado indiferenciado. As células embrionárias são como crianças rebeldes, que exigem supervisão constante. Qualquer desatenção, e elas rapidamente se transformam em algum outro tipo de célula. É justamente essa plasticidade - a capacidade de formar qualquer tecido do organismo - que os cientistas esperam um dia controlar, induzindo a diferenciação em tecidos específicos que possam ser usados no tratamento de doenças e lesões. Para chegar a isso, é preciso entender como as células-tronco funcionam. E para isso, primeiro, é preciso mantê-las indiferenciadas. "Temos muito que aprender ainda sobre a biologia dessas células", afirma a cientista. Lygia não sabe ainda se teve êxito na empreitada. As colônias celulares não se expandiram da maneira desejada. O crescimento estava lento demais. Por precaução, ela resolveu congelar as células e ganhar tempo para testar métodos alternativos de cultura. NOVA TENTATIVA Numa segunda etapa, outros 130 embriões foram descongelados pela equipe da Fertility em setembro deste ano. O Estado acompanhou a pesquisa de dentro dos laboratórios, com a permissão dos pesquisadores. Os embriões congelados ficam mergulhados em um botijão de nitrogênio líquido, a quase 200°C negativos, acondicionados em tubinhos plásticos. O descongelamento é feito em etapas: 30 minutos em temperatura ambiente, seguidos por um "banho" de 15 segundos em água quente e tratamentos com sucrose, para reidratação. Após uma análise morfológica, os embriões mais intactos são transferidos para um meio de cultura nutritivo, que simula o ambiente uterino. Mais quatro ou cinco dias dentro de uma incubadora, a 37°C, e alguns chegam ao formato de blastocisto, com aproximadamente cem células e 0,2 mm de diâmetro. Nesse estágio, as células-tronco aparecem como um "bolinho" preso à parede do embrião, chamado de massa celular interna, ou simplesmente, maciço. Para fazer a extração, entra em cena o americano Ric Ross, especialista no procedimento. Técnico de um banco público de embriões da Califórnia, ele veio para ensinar à equipe da Fertility como colher as células-tronco. O processo é manual. As ferramentas são um microbisturi, uma pipeta de vidro e um par de mãos "cirúrgicas" para manipulá-las. Quatro jovens embriologistas da clínica assistem por um monitor o que Ross enxerga pelo microscópio. Com movimentos precisos, ele rasga a membrana do embrião e libera o maciço. As células-tronco são então coletadas e enviadas em cultura para o laboratório da USP. Para aqueles que se opõem às pesquisas com embriões, o que transcorria ali era genocídio. Entre os presentes, porém, o clima era de tranqüilidade e respeito. "Sou muito religiosa, mas não concordo que os embriões sejam seres humanos", comenta a embriologista Daniela Braga. "Para mim seria imoral abrir mão de uma pesquisa que tem o potencial para salvar vidas." Desta vez, porém, os resultados decepcionam. Dos 130 embriões descongelados, só 4 chegaram a blastocisto. E nenhuma das culturas celulares foi adiante. De volta à USP, Lygia resolve descongelar duas das potenciais linhagens guardadas do ano passado. As colônias continuam lentas, porém ativas. Um teste deverá dizer esta semana se elas permanecem células embrionárias, ou se já se diferenciaram espontaneamente em algum outro tecido.