O desmatamento na ponta da língua

Marcos Sá Corrêa* - O Estado de S.Paulo

Os Caçadores de Frutas, do canadense Adam Leith Gollner, lembra uma loja de frutas, no esplendor do verão carioca. É um livro exótico para todos os gostos. E chegou tão depressa à edição brasileira, meses depois do lançamento em inglês, que parecia fora da estação quando apareceu este mês, já em português, nas livrarias do Rio.Geralmente, essas coisas demoram a aparecer por aqui. E às vezes já vêm passadas. Mas Gollner parece ter conseguido acelerar o transplante, creditando ao Brasil o desabrochar de uma obsessão, que o levou a viajar pelo mundo atrás de pomares, selvas, feiras e mercados onde pudesse abrir cascas, morder polpas e violar o segredo dos óleos essenciais de sabores desconhecidos. "Desde que estive no Brasil, sei que as frutas me tornam feliz, embora ainda esteja tentando entender por que", ele avisa.Diga-se de passagem que logo na primeira frase do primeiro capítulo, contando a vinda ao Rio que o embriagaria para sempre com "abacaxi, açaí, ameixa, cupuaçu, graviola, maracujá, taperebá, uva, umbu", ele entra no Jardim Botânico "pelas colunas jônicas da entrada". Se fosse um livro sobre arquitetura, daria para fechá-lo ali mesmo - pois, fora as palmeiras imperiais, a fuste mais parecida com uma coluna jônica fica no fundo do arboreto, onde foi parar a fachada da Academia de Belas Artes, um prédio do arquiteto Grandjean de Montigny desterrado pela febre de demolições que atacou o centro da cidade no século 20.Pode-se também implicar com o zelo do tradutor que, na página 288, enxertou num parágrafo sobre frutas fotografadas com Tri-X uma nota de pé de página, explicando que "XXX" é o "código americano de classificação de filmes que contêm cenas de violência ou pornografia exageradas". Ora, até as peras fotografadas nas ruas do México por Henri Cartier-Bresson parecem saber que Tri-X era a marca de filme em preto e branco fabricado pela Kodak.Mas o resto é festa. E esses detalhes não impedem que Gollner seja meio hipnótico, quando trata de seu assunto. E fruta, para ele, é assunto que não acaba mais, pesquisado com voracidade insaciável e descrito com sensualidade quase lúbrica. Ele precisou ir ao Havaí para conhecer a brasileiríssima jabuticaba, por exemplo. Mas tirou da experiência um parágrafo de dar água na boca: "Elas se parecem com uvas gigantes de cor púrpura escura. Como a fruta cresce diretamente do tronco da árvore, como alguma espécie de fungo doce, o melhor modo de comer uma é o ?beijo da jabuticaba?. No Brasil, a garotada entra nos quintais de outras pessoas e as beija das árvores. O escritor Monteiro Lobato descreve o som de um beijo de jabuticaba como ploc, pluf, pituí." Não faltam nos caminhos de Gollner encontros com bilionários excêntricos, agricultores lunáticos, marqueteiros charlatães, fruteiros mafiosos e devotos sinceros, como o imperador Deocleciano, "que abdicou do reino para se dedicar a suas amadas árvores". Mas ele nunca perde de vista que suas protagonistas são as frutas, algumas tão raras que, para conhecê-las, ele se arrisca a violar regulamentos locais do outro lado da terra e a burlar a alfândega na volta para casa. E isso transforma Os Caçadores de Frutas num manifesto ambiental com açúcar, que desce macio pela goela do leitor. Gollner vive atormentado pelos sabores inéditos que desaparecem nas florestas tropicais antes que ele possa prová-los. E isso, no fundo, é o que todo brasileiro deveria aprender sobre as queimadas na Amazônia. As notícias sobre desmatamento podem ser abstratas e distantes. Mas basta ir à loja de sucos mais próxima para botá-las na ponta da língua. *É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)