''O design não é universal''

Andrea Vialli - O Estado de S.Paulo

Aos 40 anos, o designer Frank Tyneski desponta como um dos grandes nomes da atualidade. De sua prancheta saíram inovações como a série[br]BlackBerry 7100. Um dos jurados do Idea, Tyneski conversou com o Estado em visita ao Brasil

Quais são as tendências mais fortes do design nos dias de hoje? Estamos vivendo um momento único no campo do design. A partir da década de 1980, o fator qualidade de um produto praticamente se tornou universal. Todos os produtos concorrentes tinham qualidade similar, não importava a marca. Nos anos 1990, começamos a ver uma tendência de personalização do design - você coloca sua cor, seu toque pessoal. Hoje, as duas tendências se uniram, o que criou um campo de trabalho sem igual para o design. Hoje, todos os produtos são bonitos, são funcionais, são atraentes, e você ainda pode colocar seu toque pessoal. A nova fronteira é a chamada experiência holística do design. E o que isso significa? Trata-se de uma experiência holística com as marcas. Ou seja, não é só o design, ou a funcionalidade do produto que contam para o consumidor, pois essas características tornaram-se commodities. Hoje eu digo com toda certeza que o design é o grande embaixador das marcas, que precisam envolver as pessoas. A Apple tem trabalhado bem isso. Eles não vendem só o iPod, ou o iPhone, eles vendem uma experiência de conexão, de convergência. Podemos dizer que o design está globalizado? O que funciona bem nos Estados Unidos e na Europa tende a ter o mesmo efeito em países como China, Índia ou Brasil? Eu acho perigoso afirmar isso. O design não é universal, de forma alguma. Na minha experiência com telefones celulares, com empresas como Motorola e Kyocera, eu pude ver o quanto isso é um fato. Os países latinos, por exemplo, são muito receptivos a aparelhos coloridos. É uma cultura de celebração, que as pessoas levam para o dia-a-dia, para a comunicação, para os negócios. Nos EUA, você não consegue vender nenhum celular que não seja cinza ou preto - os consumidores racionalizam demais para ter um celular azul ou cor-de-rosa. Na indústria automobilística é a mesma coisa, os times de design das montadoras quebram a cabeça para adaptar os carros ao gosto e às necessidades locais. Como você vê o Brasil no cenário do design? Vem algum produto ou designer à sua mente quando se fala em design brasileiro? Vejo o Brasil como um País de grandes oportunidades para o design. Pode ser um grande exportador de design até mesmo para a Índia e a China. Os indianos são bons em arquitetura da informação, os chineses são bons em cópia. Agora, não me leve a mal, mas quando penso em design brasileiro, o que me vem à mente são as pinturas indígenas da Amazônia. Elas são lindíssimas, mas penso que talvez falte um incentivo governamental para o Brasil fazer seus designers serem conhecidos mundo afora. Quando se fala em Escandinávia, logo pensamos em móveis maravilhosos. Quando se fala em Itália, se pensa em calçados, produtos de moda. O Brasil produz muitas coisas em design, mas falta provocar uma identificação imediata. Então faltaria uma identidade ao design brasileiro? Certamente não falta ao Brasil o conhecimento sobre design. Como disse, o Brasil pode ser uma potência em design, pois há criatividade, efervescência. Dá para perceber isso em uma cidade como São Paulo. Mas falta tornar isso estratégico, fazer o mundo conhecer o design brasileiro. Tirar partido dessa cultura de celebração, da arte brasileira, que é rica, e também da exuberância dos materiais crus, naturais. Há uma tendência de ecodesign em que o Brasil pode ser competitivo. Quem são os grandes nomes do design na atualidade? Hoje os designers mais importantes estão dentro de empresas, chefiando equipes cada vez mais estratégicas. Eu mencionaria Bruce Claxton, da Motorola, Robert Schwartz, da Procter&Gamble, e Ken Musgrave, da Dell Computer. Eles estão conduzindo grandes negócios, mas pensam artisticamente.