O comportamento de ''bem'' prefixado

Evanildo Bechara* - O Estado de S.Paulo

A pergunta sobre o comportamento ortográfico do elemento prefixal bem é muito bem-vinda, porque nos dá ocasião de discorrer sobre aspectos que ficaram submersos por uma redação do texto oficial sujeita a controvérsias, que motivou a perplexidade do nosso perspicaz consulente: "Pelo texto do acordo (Base XV, 4º) bem-feito passa a ser escrito benfeito ou apenas quando se trata de Benfeito como nome próprio (exemplo citado em Base VII, 3º)? E bem-vindo passaria a se escrever benvindo? E bem-sucedido?"   Leia mais sobre as novas regras ortográficasO acordo de 1990 ensina-nos que bem se liga por hífen ao segundo elemento, formando com este uma unidade sintagmática e semântica, não só quando o último começa por vogal ou h, mas também por consoante. Isso é o mesmo que dizer que, pela regra geral, bem sempre se separa por hífen do segundo elemento, qualquer que seja o seu inicial, o que o aproxima dos integrantes do grupo 5º da Base XV, justificando a nossa decisão didática de reuni-lo ao grupo 5º da Base XV nos dois livrinhos que escrevemos sobre a reforma para a editora Nova Fronteira. O que complica o caso de bem do ponto de vista ortográfico é que, embora constituindo com o segundo elemento unidade sintagmática e semântica, ela não o é rigorosamente da mesma natureza quando há necessidade do emprego do hífen e quando, justapostos, os elementos se ligam sem o concurso do diacrítico, isto é, juntos. O texto de 1945 já apontava para este aspecto semântico quando afirmava: [emprega-se o hífen nos] "compostos formados com o prefixo bem, quando o segundo elemento começa por vogal ou h, ou então quando começa por consoante, mas está [subentendido, o segundo elemento] em perfeita evidência de sentido."Isso quer dizer que os compostos com bem só serão hifenados se o segundo elemento começado por consoante não guardar a evidência do seu significado, isto é, se ele sozinho ou junto com o prefixo esmaecer o sentido primitivo. No seu Tratado da Ortografia da Língua Portuguesa (Coimbra, Atlântida, 1947), Rebelo Gonçalves, alargando razões das decisões da reforma de 1945, da qual ele foi o mais respeitável articulador, comenta os motivos da hifenização com o prefixo bem e relaciona os justapostos sem hífen com: bendito, bendizer, benfazer, benfeitor, benquerença e benquisto. A nota seguinte nos elucida: "Aglutinam-se neles os dois elementos, por o segundo não estar em perfeita evidência de sentido. E a perda desta evidência pode dar-se por várias razões: não ter o segundo elemento existência autônoma (benfazejo); ser de raro uso ou ter caído em desuso (benquerença, benquisto); não valer semanticamente por si só, mas pelo seu conjunto com o prefixo (bendizer = abençoar)" (Tratado, pág. 230 n. 1).O acordo de 1990 não faz qualquer alusão ao aspecto semântico do segundo elemento. Esta nova conceituação do tratamento faz nascer um largo número de homófonos, isto é, formas foneticamente análogas, mas com significados distintos, que precisam ter soluções gráficas diferentes. Exemplificando: bem-dito/bendito, de bendizer; bem-dizer/bendizer (abençoar); bem-feito/benfeito e Benfeito (antropônimo e topônimo); bem-posta/Bemposta (topônimo); bem-vindo/Bemvindo (antropônimo); Bembom (ilha e porto da Bahia), sem contar os numerosos casos de homofonias do tipo de bem-afeiçoado/bem afeiçoado (isto é, o advérbio bem e particípio de afeiçoar); bem-avisado/bem avisado;), bem-posto/bem posto, etc.Atendendo às indagações do leitor, teremos bem-feito ("feito com esmero", "elegante"), diferente de benfeito, substantivo ("benfício"), e do nome próprio Benfeito e bem feito!, interjeição de aprovação às consequências negativas de um erro ou castigo; um bem-vindo, adjetivo e interjeição, e o nome próprio Benvindo; um bem-sucedido e um bem sucedido, e assim por diante. Não há substituições gráficas de um por outro, como imaginou o leitor, que "bem-feito passa a ser escrito benfeito, ou apenas quando se trata de Benfeito como nome próprio"; trata-se de distinções de homófonos que o bom-senso e a fidelidade à intenção comunicativa mandam distinguir graficamente. Envie suas dúvidas sobre o acordo ortográfico para o e-mail vidae@grupoestado.com.br*Evanildo Bechara é filólogo e gramático, membro da Academia Brasileira de Letras e Coordenador da Comissão de Lexicografia e Lexicologia da instituição