O amor entre as pessoas idosas

Kate Zernike - O Estado de S.Paulo

Aumento da expectativa de vida levanta questões sobre o relacionamento afetivo durante a terceira idade

O marido da ex-juíza Sandra Day O?Connor, sofredor da doença de Alzheimer, tem um romance com outra mulher, e a ex-juíza fica encantada - chega a visitar o novo casal enquanto ficam de mãos dadas na cadeira de balanço da varanda - porque é um alívio ver o marido de 55 anos tão contente. O que a cultura nos diz sobre o amor é geralmente sobre o amor jovem. Canções, filmes e literatura nos mostram o enlevo e a traição, a excitação e as lágrimas. A história dos O?Connors, relatada pelo filho do casal em entrevista a uma estação de televisão do Arizona - onde o sr. O?Connor vive num centro de repouso assistido - abriu uma janela para o que poderia se chamar de amor idoso. Evidentemente, isso iluminou as relações que, com freqüência, se desenvolvem entre pacientes de Alzheimer - novas afeições, assim alguns as chamam - e a maneira como o desejo de intimidade persiste mesmo quando a demência rouba tantas outras coisas. Mas, na descrição da reação da juíza O?Connor, a história revelou uma pungência e uma riqueza do amor de pessoas mais velhas, oferecendo um raro modelo numa época em que as pessoas estão vivendo e amando por mais tempo. "Isso está perfeitamente presente em termos de questões éticas e culturais candentes do amor de pessoas maduras", diz Thomas R. Cole, diretor do Centro de Saúde, Humanidades e Espírito Humano McGovern da Universidade do Texas, e autor de um livro sobre história cultural da velhice. "Precisamos de exemplos morais, não para imitar servilmente, mas para nos ajudar a identificar maneiras de se amar quando se é mais velho." Historicamente, o amor na velhice não tem tido muito espaço na cultura, afirma Cole. Isso está começando a mudar, diz, com o aumento da expectativa de vida e o início do envelhecimento de uma geração mais liberada sexualmente. Casas de repouso estão sendo obrigadas a enfrentar um aumento da atividade sexual. E, apesar dos estereótipos, pesquisadores que estudam as emoções ao longo da vida dizem que o amor idoso é, de muitas maneiras, mais satisfatório que o amor jovem - embora também mais complexo, como mostra o exemplo dos O?Connors. "Há uma diferença entre o amor tal como ele é apresentado em filmes e músicas como essa coisa sexy que envolve roupas mínimas, e o que é realmente o amor", diz a psicóloga Mary Pipher, cujo livro Another Country (Outro país) analisa a vida emocional dos idosos. "O script realmente interessante não é que as pessoas gostam de fazer sexo. O script realmente interessante é o que as pessoas estão dispostas a aceitar. O amor jovem trata do desejo de ser feliz", avalia ela. "O amor idoso trata de desejar que outra pessoa seja feliz." Não se trata de relações temperadas pelo tempo e pelas lembranças - embora façam parte, assim como uma inércia chamada pelos pesquisadores de efeito familiaridade, que impede as pessoas de desistirem de relacionamentos longos. Além desses componentes, os pesquisadores do cérebro dizem que pessoas idosas podem lidar melhor com as vicissitudes do amor. À medida que envelhece, o cérebro se programa melhor para ser feliz em relacionamentos. REAÇÕES Pesquisadores que tentam compreender envelhecimento e emoção fizeram escaneamentos cerebrais de pessoas de todas as faixas de idade, detectando suas reações a situações positivas e negativas. As pessoas jovens tendiam a reagir às situações negativas. As de meia idade tinham um melhor equilíbrio das positivas. E as idosas só reagiram às situações positivas. "À medida que as pessoas envelhecem, parecem olhar naturalmente para o mundo pelo ângulo da positividade e pela disposição de aceitar as coisas que quando era jovens achariam perturbadoras", diz John Gabrieli, professor de neurociência cognitiva do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e um dos pesquisadores. Não é racionalização, porque a reação é instantânea. "Em vez do que seria mais perturbador para alguém, sentir-se traído ou desconfortável, outros pensamentos sobre como, de sua perspectiva, aquilo não é traição podem ser acomodados mais facilmente", explica. Cérebros jovens costumam ir a extremos . O amor idoso coloca as coisas em foco suave. "Quando você envelhece, começa a reconhecer que não vai durar para sempre, para o bem ou para o mal", diz Laura Carstensen, diretora do Centro de Longevidade Stanford. "Você compreende que os momentos ruins passam, e compreende que os momentos bons passam", afirma. "Quando você os experimenta, eles são mais preciosos, mais ricos." É evidente que nem todos mostrariam a reação emocionalmente generosa da ex-juíza O?Connor. Como diz Cole: "tenho muitos exemplos em mente de pessoas que se mostram ciumentas, infantis, cheias de irracionalidade quando se apaixonam nos seus 70 e 80 anos." E ainda é possível ficar de coração partido na velhice. Mas, em geral, Carstensen diz, um coração partido parece diferente na pessoa idosa. "Você não grita e berra e chora o dia todo como poderia fazer se tivesse 20 anos." NO CINEMA No filme Away From Her (Longe dela), baseado em um conto de Alice Munro, o ponto de partida é semelhante ao da história de O?Connor. Um homem que não consegue imaginar a vida sem sua exuberante esposa de algumas décadas vê a mulher ser tomada pelo Alzheimer e ter um romance com outro paciente numa casa de repouso. No filme, a devoção do marido é tamanha que, depois de vê-la arrasada quando o outro se muda, ele dá um jeito para que o novo namorado dela retorne à casa de repouso. Mas a história é mais complexa. O marido teve uma série de casos anos antes, e o que parece devoção é também um desejo de compensá-la e aplacar o seu próprio remorso. Mesmo assim, apesar de todos esses tipos de complicação, os que estudam a velhice só conseguem, sabiamente, sorrir ante jovens enamorados. Apesar da preferência popular pelo amor jovem, o exemplo dos O?Connors sugere que todos deveriam aspirar ao amor idoso.