Novas mulheres rendeiras

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

Bordar, tricotar, fazer rochê, ponto cruz e fuxico são atividades que, por algum tempo, ficaram associadas às vovós. E olhe lá, pois algumas mais moderninhas nem sabem pregar um botão. Tudo porque, desde o momento em que as mulheres saíram de casa para conquistar o mercado de trabalho, a tradição passada de mãe para filha ficou aparentemente em segundo plano.Mas entre fios, linhas e agulhas surge uma nova geração de ?moças prendadas?. Elas fazem jornadas duplas, às vezes triplas. De quebra, têm tatuagens, pintam as unhas de preto e encontram nos trabalhos manuais momentos de prazer e criatividade. A publicitária Telma Bueno chegou a ter aulas de crochê e tricô com a avó, aos nove anos de idade. ?Continuei até os 16, porém interrompi por causa dos estudos. Foi uma pena esquecer de muita coisa?, diz. Para recuperar o tempo perdido, ela comprou revistas de ponto cruz. Agora Telma tem uma ?lista de encomendas? de amigos que querem suas toalhas e panos de prato bordados à mão.?Conheço muitas mulheres que sentem orgulho de não saber fritar um ovo. Elas não imaginam como esse tipo de atividade pode ser relaxante e terapêutica?, ensina. Na opinião da publicitária, a própria valorização do artesanal na moda é a prova de que não se pode perder a tradição costurada e alinhavada com tanto carinho pelas vovós. ?Eu não conheço uma pessoa que não goste de um bordado ou crochê, especialmente por ter a cara de quem fez?, acrescenta. Quando era criança, a psicóloga Giovana Dalvi não tinha o menor interesse em aprender corte e costura, embora não faltassem professoras. Atualmente pegando lições de tricô, ela faz seu primeiro cachecol. ?É mais difícil do que eu imaginava. Eu me sinto um pouco desengonçada nesse início. Até me lembrei que, não por acaso, a minha primeira nota baixa na escola foi em educação artística?, diverte-se.Giovana conta que adquiriu agulhas e novelos como forma de driblar a ansiedade. ?Está funcionando. Fazer um trabalho manual é ótimo. Espero conseguir acabar meu cachecol até o inverno?.De retalho em retalho, a Aldeia do Futuro produz peças com fuxico desde 1998 e dá aulas para mulheres de comunidades carentes da zona sul de São Paulo. ?Temos alunas de 87 anos. Para nossa surpresa a maior procura é das alunas que estão na faixa dos trinta anos de idade. Elas não tiveram a lição de corte e costura em casa?, explica Deli Espíndola, coordenadora da Ong. A febre bordadeira está literalmente espalhada pelo mundo. Nos Estados Unidos, há dois anos, um movimento de mulheres entre 25 e 40 anos, o Knitta, tomou conta das ruas. Para divulgar a importância da atividade, vale interferir em tudo: colocar tricô no corrimão de escada, em poste, banco de praça...