Nos hospitais dos EUA, uma nova corrida nuclear

The New York Times, Nova York - O Estado de S.Paulo

Criados a custos altíssimos, centros de prótons para tratar alguns tipos de tumor dividem especialistas

Há uma nova corrida por aceleradores de partículas nucleares, e ela está acontecendo dentro dos hospitais. Centros médicos estão buscando transformar esses equipamentos, anteriormente usados apenas em pesquisas exóticas, nas mais recentes armas contra o câncer.Alguns especialistas dizem que o movimento reflete o melhor e o pior do sistema de saúde voltado para o mercado dos Estados Unidos, que tende a buscar tratamentos mais modernos e mais caros, sem muitas evidências de melhorar a saúde, apesar de os custos crescentes engrossarem encargos econômicos do país.As máquinas aceleram prótons até perto da velocidade da luz e os disparam no interior de tumores. Cientistas dizem que os feixes de prótons são mais precisos que os raios X tipicamente usados em radioterapia, com menos efeitos colaterais de radiação extraviada e, possivelmente, uma taxa de cura mais alta. Mas um acelerador de 222 toneladas, e um edifício do tamanho de um campo de futebol americano com paredes de 5,5 metros de espessura para abrigá-lo, pode custar mais de U$ 100 milhões. Isso faz de um centro de prótons, nas palavras do fornecedor de um equipamento, "o aparelho médico mais caro e mais complexo do mundo".Até 2000, os Estados Unidos tinham apenas um centro hospitalar com terapia de prótons. Agora eles são cinco, e mais de uma dúzia de outros foram anunciados, além do que estão em estudo. Para alguns, é grande a necessidade de mais centros. Outros dizem que se impôs uma mentalidade de corrida armamentista na medida em que centros médicos tentam ser os primeiros a tirar vantagem do prestígio - e dos lucros - que um aparelho de prótons pode oferecer."Estou fascinado e horrorizado com a maneira como isso está se desenvolvendo", disse Anthony L. Zietman, oncologista radioterapeuta de Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts, que opera um centro de prótons. "Esse é o lado escuro da medicina americana." Para ele, quando hospitais fazem investimentos dessa monta, médicos são pressionados a orientar pacientes para a terapia mesmo que uma alternativa mais barata resolva.Preocupações de custo dessa ordem foram manifestadas no passado sobre outras tecnologias novas como os escaneadores por ressonância magnética (MRI). Embora tenham se tornando corriqueiros, ainda existem preocupações com seu uso exagerado. Zietman disse que embora prótons sejam vitais para tratar alguns tumores, eles foram pouco melhores que a tecnologia mais moderna de raios X para lidar com câncer de próstata, a doença comum com a qual muitos centros estão contando para seus negócios. "Mal se nota a diferença, exceto no preço."