No topo das paradas, cantoras fazem de 2016 o ano das mulheres no sertanejo

Vitor Tavares - O Estado de S.Paulo

Marília Mendonça e as duplas Maiara e Maraisa e Simone e Simaria mostraram que as mulheres podem fazer e falar sobre o que quiserem

As gêmeas Maiara e Maraisa

As gêmeas Maiara e Maraisa Foto: Divulgação

Marília Mendonça expulsa do coração o namorado infiel; as gêmeas Maiara e Maraisa cantam a bebedeira para esquecer o fim da relação; e as irmãs Simone e Simaria perguntam: "Tá batendo na minha porta a essas horas será por quê? Qual foi a parte que você não entendeu; Não quero mais te ver". No sertanejo, 2016 ficou marcado como o ano em que as mulheres deixaram de ser as personagens das letras sobre traições, figurantes em videoclipes, e passaram a ter voz.

Na lista brasileira da Billboard, principal revista da indústria musical no mundo, nos últimos meses, elas estão sempre nos primeiros lugares entre as mais tocadas - nesta quinta-feira, 24, cantam três das dez mais tocadas do País. Certo que não é exatamente uma novidade a presença feminina no mundo sertanejo -  Roberta Miranda a partir do fim do anos 1980 e Paula Fernandes nos anos 2000 estão aí para provar. Mas o cenário em que o domínio é das canções cantadas pelas mulheres aparece como um fenômeno novo.

Para isso, o quinteto que vem disputando a liderança nas paradas prega uma união entre a geração que já estaria formando um "movimento".  "Se a gente não se fortalecer no mercado, será tudo passageiro, precisamos de força pra não ser só um movimento, ser algo que tenha chegado, mas que fique", disse Marília Mendonça. "Criamos ainda mais força e fortalecimento dentro do mercado que sempre foi tão masculino", completou Simaria.

Pesquisador do sertanejo e autor do livro Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira, o professor Gustavo Alonso reforça que essa geração de mulheres não necessariamente quebra os padrões já ditados pelo sertanejo universitário, gênero que começou a se destacar em 2005, trazendo uma "modernização" à música caipira.  "O que há é o fato de as mulheres poderem falar as mesmas coisas que os homens e também fazer as mesmas coisas. Ir a motel, chorar em bar, beber até cair, dar o troco", comentou.

Em geral, elas falam sobre superação, traição, amor, sofrimento, pegação - temas recorrentes no sertanejo universitário. Mas não há mais o limite entre o que elas devem abordar ou não em suas músicas, rejeitando uma definição enquanto artista por alguma temática específica. "A novidade é a mulher cantar isso agora e ser visto como normal e até desejável. Inezita era associada à tradição. Roberta Miranda aos bolerões dor de corno", explicou Alonso, para quem a ascensão feminina é fruto também de uma modernização da sociedade em geral.

Nascidas na Bahia, Simone e Simaria começaram no forró

Nascidas na Bahia, Simone e Simaria começaram no forró Foto: Divulgação

Apesar de estourarem só agora, as cantoras já estão no meio musical há muitos anos. Maiara e Maraisa, por exemplo, estão no palco desde os 5 anos. Sempre escreveram letras, que estouraram na boca de duplas como Henrique e Juliano ou Jorge e Mateus. Elas, entretanto, não conseguiam se firmar no mercado. "No começo foi bem difícil porque a gente via os outros estourarem com nossas letras e a gente não", lembra Maiara. Artistas como Marília Mendonça e Paula Mattos também escreviam canções para outros cantores.

As baianas Simone e Simaria também começaram a cantar quando ainda eram crianças, em Uibaí, cidadezinha baiana onde nasceram. As duas se mudaram para São Paulo e passaram a fazer shows em uma casa de forró, até se juntarem a Frank Aguiar, com quem passaram a trabalhar como back vocals. "Chegamos a ouvir de muitas pessoas que duas mulheres nunca dariam certo a frente de uma banda mas, com o passar do tempo, mostramos que, sim, mulheres dão certo", falou Simone.

Poder feminino. Todas as cantoras que deram entrevista ao E+ rejeitaram o título de "feministas". Denominação à parte, fato é que todas passaram a dar mais voz às mulheres - não só no sentido musical. Na última semana, por exemplo, Maiara e Maraisa  pararam um show que faziam no Acre para defender uma mulher que estaria apanhando de um homem. "No meu show, você não bate em mulher não, seu covarde", falaram.

Adepta de tênis, saltos baixos, calças e camisas folgadas, Marília Mendonça também declarou aos seus críticos nesta semana: "Ninguém merece fazer 1h40 de show usando salto alto! Eu subo ao palco para cantar e mostro que estou ali para isso, não para um desfile", falou à revista Contigo. Uma semana antes, a goiana cortou Faustão ao vivo, quando ele começou a falar sobre pessoas acima do peso, "Já vai começar com as piadas de gordo, Faustão?", disparou. Já Simone e Simaria cantaram a violência contra a mulher na música "Ele bate nela", que fez sucesso há mais de dois anos.

Marilia Mendonça tem apenas 21 anos

Marilia Mendonça tem apenas 21 anos Foto: Divulgação

Para quem pesquisa o gênero, o momento de crescimento das mulheres é importante para superar as origens do ritmo, que nasceu em um ambiente agrário, do campo, tradicionalmente machista. Vindas de cidades do interior de Goiás, Mato Grosso e Bahia, as cantoras sentiram na pele. "Chegamos a pensar em desistir, sempre gravávamos e não virava", lembrou Maraisa.  "Elas cantam músicas em que a mulher é o personagem principal, muitas vezes agindo da mesma forma que os homens agiam. Se isso é feminismo, não sei.  O fato é que a música sertaneja ter adotado este discurso denota a complexificação da sociedade brasileira", destacou Gustavo Alonso.

Alçadas às rádios do País também com ajuda dos homens - todas falaram que tiveram apoio das duplas masculinas que abriram espaços em seus shows - , agora as artistas já conquistaram seu público, mesmo entre o grupo de meninas mais novas. "Elas são como nossas amigas, e através das músicas se sentem aconselhadas por mim", explicou Marília. "O fã vê a gente com proximidade, acontece um afeto mesmo", comentou Maiara. Nos camarins, sempre mais mulheres do que homens  "Elas falam sobre superação e livramento graças as nossas músicas", falou Simaria.

Dentro do cenário disputado da música, as cantoras se juntaram - e vêm se juntando - para se firmar no mercado sertanejo. Maiara e Maraisa e Marília Mendonça, amigas há anos, estiveram juntas na composição de músicas e dividem a voz em sucessos como "Motel" e no projeto "Festa das Patroas". As gêmeas também cantam juntas o hit 50 reais com outra sertaneja que desponta entre as mais tocadas no País, Naiara Azevedo, que, por sua vez, tem parceria com Paula Mattos, mais uma para lista. "Viemos pra mostrar pra 'homarada' o poder das mulheres", brincou Maiara. "É isso que buscamos, uma liberdade que nos iguale ao sexo masculino, é assim que tem que ser", completou Marília.