Nas últimas décadas, Vaticano assinou documentos com cerca de 50 governos

Jamil Chade, GENEBRA - O Estado de S.Paulo

Nos últimos anos, a Santa Sé vem adotando uma ofensiva diplomática para renovar e atualizar acordos com os países. Em cada local, a estratégia é moldar seus interesses com a realidade dos governos. Ao longo das últimas décadas, foram assinados cerca de 50 documentos. Leia a íntegra dos projetos aprovados na CâmaraO Vaticano diz se tratar de regulamentação das relações entre governos e suas atividades. Fontes na Santa Sé apontaram ao Estado que vários governos contam com acordos similares ao que se tenta estabelecer com o Brasil, entre eles a Itália. Um dos países que recentemente renovou seu acordo com o Vaticano foi Portugal, em 2004. O tratado substituiu o texto de 1940, assinado entre Igreja e governo em plena ditadura.Mas o acordo com Portugal é mais amplo. Pelo documento, o casamento religioso é equiparado ao civil, o divórcio passa a ser algo "grave" e ainda estabelece a "educação moral e religiosa católica". Outro país de língua portuguesa que também estuda adotar o mesmo acordo é o Timor Leste. Com 97% de católicos em uma região dominada pelo Islã e budismo, a Igreja vê o país como peça fundamental. O governo admite adotar a posição da Igreja em relação ao aborto. "Só um ateu ou um idiota não gostaria de desenvolver uma relação forte com a Igreja", declarou o presidente José Ramos Horta em entrevista a um jornal local há dois meses. Na Eslováquia, o acordo com o Vaticano gerou uma crise política. O Partido Democrata Cristão, que formava parte da aliança que governava o país, se retirou da base do governo com a decisão do primeiro ministro de não aprovar a concordata. O Executivo não aceitou exigências como o ensino católico nas escolas, o direito de médicos de não fazerem abortos e a recusa de funcionários de trabalhar aos domingos. Sem apoio, o governo acabou caindo em 2006. A Espanha também assinou uma série de concordatas com o Vaticano nos últimos três séculos. Um deles foi assinado entre a Santa Sé e o ditador Francisco Franco, o que acabou sendo modificado com a democracia. Agora, o governo de José Luis Zapatero passou a adotar uma posição mais distante da Igreja e quer aprovar uma lei em setembro para retirar símbolos religiosos de escolas e hospitais.