''''Não fazemos patrulha ideológica''''

Renata Cafardo - O Estado de S.Paulo

A historiadora Margarida Maria Dias de Oliveira esforça-se para manter o sigilo que ronda a avaliação dos livros didáticos no País. Segundo regras do Ministério da Educação (MEC), nada pode ser dito sobre as coleções excluídas e consideradas inadequadas para as salas de aula brasileiras. A intenção é não estigmatizar autores ou condenar editoras. Mas a polêmica recente em torno da coleção Nova História Crítica, analisada e rejeitada pela equipe supervisionada por Margarida na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), abriu brechas. Com cuidado, a professora especialista em ensino de história disse ao Estado que o livro do autor Mario Schmidt lembrava coleções escritas nos anos 80, quando, com o fim da ditadura, foram produzidos materiais repletos de conceitos maniqueístas e noções marxistas. "Não excluímos o livro porque defende essa ou outra posição, mas porque tem informações desatualizadas, conceitos não mais trabalhados, estereótipos, simplificações explicativas", afirma. A seguir, trechos da entrevista. Quais os critérios para a avaliação de um livro didático de história? Um bom livro trabalha bem com fontes históricas, com a problematização, mas mostra que essa história é uma possibilidade e pode haver outras. Ele não pode incidir em erros como anacronismos, ou seja, explicar fatos passados com os valores de hoje. Analisa-se também a linguagem, as imagens usadas, se a obra está desatualizada, se é coerente com o que autor propõe pedagogicamente e se tem conceitos errados. A coleção ?Nova História Crítica? tem uma tabela dizendo que, no capitalismo, a burguesia toma as decisões e busca lucro pessoal. E, no ideal marxista, tudo é feito com honestidade para agradar toda a população. Isso é um erro conceitual ou uma posição ideológica? É uma posição ideológica, com certeza. É possível um livro de história sem nenhum posicionamento? Não é possível em nenhuma área. Há estereótipo e preconceito até em livro de matemática. Não existe isenção, não existe imparcialidade. Mas o papel dessa avaliação não é fazer patrulha ideológica. Nós não excluímos o livro porque defende essa ou outra posição. Excluímos porque o livro tem informações desatualizadas, conceitos que não são mais trabalhados, estereótipos, simplificações explicativas. O trecho que você comentou é uma simplificação explicativa. Essa questão ideológica foi discutida durante a avaliação? Não podemos divulgar o parecer de exclusão, mas se isso aconteceu é porque o livro tinha muitos problemas. Uma das proibições é haver doutrinação religiosa, política ou propagandas de produtos. Também não podem ter fotos de bebidas, por exemplo. Isso é critério de exclusão. Se o parecerista entendeu que alguma frase tinha doutrinação política, ele colocou na avaliação, mas eu não posso dizer. Tivemos acesso ao parecer e uma das observações dos avaliadores era de que o livro tinha "conceitos ultrapassados de historiadores de esquerda". Historiadores de esquerda são ultrapassados? Não, de forma alguma. Mas uma certa noção de esquerda simplificada, ortodoxa, está ultrapassada. Isso era comum nos anos 80, quando vivíamos o fim da ditadura e a redemocratização. Esses livros fizeram muito sucesso. No afã de se contrapor à historia tradicional da ditadura, um marxismo mais simplificado chegou às escolas. Hoje não é mais assim, há um maniqueísmo diminuto nas boas coleções. Os livros didáticos tiveram uma mudança qualitativa impressionante. Mas nenhum livro é perfeito. Por que esse livro foi aprovado por outras equipes? Os critérios mudam, os editais mudam. Desde 1995, os livros foram se aperfeiçoando e os editais também. Houve mudança no número de erros que poderiam ser encontrados. O País também começou a se preocupar mais com questões afirmativas, com questões de cidadania e tudo isso incide na avaliação. Além disso, as comissões são diferentes e são autônomas.