Não é coisa de mulherzinha

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

A dor e a humanidade caminham juntas. E reclamando de dor nas pernas. A fibromialgia, que muitos acreditavam ser uma das manifestações mais recentes da dor, parece ter sido relatada na Bíblia, segundo a reumatologista Evelin Goldenberg, do Hospital Israelita Albert Einstein e professora da Universidade de São Paulo (Unifesp). Neste quadro tão doloroso, diagnosticado por meio da pressão de 18 pontos específicos no corpo, a paciente sofre também com distúrbios no sono, fadiga, problemas de memória. Mas o que a fibromialgia tem a ver com as mulheres? Quase tudo: de 70% a 90% das pessoas que sofrem com o problema são do sexo feminino. O fato de a doença só ter sido levada a sério recentemente faz com que muitos médicos e pessoas considerem a dor como ?frescura?. Professor de reumatologia da Universidade de Michigan, Dan Clauw publicou, recentemente, uma pesquisa que mostra como a dor da fibromialgia é real. ?Quando os pacientes recebem crédito pelos sintomas, os médicos têm mais condições de tratá-los da maneira correta?, conta diz o pesquisador ao JT. Clauw acredita que o resultado da pesquisa dá mais esperanças para pacientes do que para os médicos que cuidam deles. ?Eles devem levar a sério, ou não seriam especialistas em dor.? As fibromiálgicas, no passado, já foram tratadas como loucas. Mas vale lembrar que problemas psiquiátricos como depressão e distúrbio bipolar não têm explicações biológicas e, mesmo assim, médicos reconhecem e tratam essas doenças. ?O mesmo ocorre com a fibromialgia, embora não seja uma doença psiquiátrica?, explica o professor. A pesquisa de Clauw, publicada em dezembro no jornal Current Pain and Headache Reports, mostrou - com a ajuda de ressonância magnética computadorizada - que pacientes que receberam uma leve pressão tiveram o mesmo tipo de ativação cerebral do que pacientes que receberam uma pressão mais forte. ?Isso mostra que pacientes com fibromialgia têm muito mais dor com uma pressão leve do que pacientes sem a doença que receberam uma forte pressão. Essa é a evidência objetiva da amplificação da dor na fibromialgia.? Mas, para os pacientes, o que está em jogo não é o diagnóstico, mas o tratamento da doença. A empresária Adriana Kreibrich da Costa, de 31 anos, já estava tomando um derivado da morfina quando descobriu o uso da cetamina na fibromialgia.Desenvolvida em 1965 para uso como anestésico, a droga é recomendada para casos em Que outros medicamentos não funcionam. Sua ação é como inibidora do receptor NMDA, responsável pela perpetuação da dor. No tratamento, feito de forma intensiva, o paciente recebe a droga na veia por 5 dias. ?Minha mãe disse que logo nas primeiras horas minhas rugas de dor estavam desaparecendo?, relata Adriana. No Brasil, a reumatologista Evelin Goldenberg é uma das pioneiras no uso da cetamina no tratamento da fibromialgia. ?Percebemos uma melhora nos episódios de dor e, em alguns casos, até a ausência?, comenta Evelin, autora de O coração sente, o corpo dói - Como reconhecer e tratar a fibromialgia (Atheneu, R$ 39). A fibromialgia é uma doença não tem cura, mas pode ser mantida sob controle com tratamento.