Nada de jogar fora

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

Há quem não consiga descartar objetos antigos. Mas essa mania nem sempre é motivo [br]de preocupação

Para o novo entrar, o velho tem que sair, reza o ditado popular. Muitos, porém, não levam isso a sério e têm mania de guardar peças antigas. Apegam-se a roupas, discos e até a móveis do passado. Vão acumulando tudo em casa, com muito saudosismo. Alguns têm até um quarto ou ambiente específico para guardar esses objetos que acabam virando fetiches. A advogada Cláudia Guida, de 44 anos, guarda suas bonecas de infância, discos dos anos 70 e roupas, muitas roupas. São 21 bonecas Susi, cujos modelos datam de 1968, conservadas com suas roupinhas originais, impecáveis. Tanto que colecionadores já lhe ofereceram R$ 5 mil por uma delas, mas Cláudia não quis vendê-la. Hoje as bonecas ficam guardadas em um maleiro, mas ela gosta de saber que estão lá, bem cuidadas. "Até faria uma doação, mas para uma criança que soubesse cuidar de verdade delas." As memórias justificam o apego afetivo. "Tenho carinho. Foram importantes para mim, me fazem lembrar da minha infância, que foi tão gostosa." Cláudia também tem um armário cheio de roupas das décadas de 70, 80, 90... até hoje. E bijuterias dos mesmos períodos. "Recentemente, usei uma legging dos anos 80. Na moda, tudo volta." Mesmo as peças que nunca usa continuam em sua casa. "Tenho colares da época hippie, calças boca de sino. Tudo isso não deixa de ser uma informação de cultura." Em seu apartamento, há uma estante que ocupa toda uma parede e acomoda cerca de 800 vinis - outra paixão. Apesar de ter comprado a maioria desses discos em CDs, conservou tudo da época em que era apaixonada por rock. "Tenho alguns vinis raros", conta ela, que costuma limpá-los cuidadosamente. "Hoje em dia é difícil ouvi-los. Mas gosto de fazer isso quando meus amigos vêm aqui. Eles revivem uma época que alguns quase já esqueceram." Cláudia diverte-se contando que seus sobrinhos dizem que ela é uma "memória viva". "Não vivo do passado. Adoro o presente, a tecnologia, sempre aprendo coisas novas. Mas não vejo problema em cuidar bem dessas peças que têm muito valor afetivo para mim." TRÊS GERAÇÕES A fixação da estudante de moda Ana Paula Fortes Veiga Ribeiro, de 24 anos, são roupas e sapatos. Ela mora na capital paulista com o pai. Mas na casa da mãe, em Iguape, no litoral sul de São Paulo, deixa peças que vem acumulando desde os 12 anos. Esse baú de memórias não caberia no apartamento onde mora. "Meu pai vai para lá todo final de semana e sempre peço para ele me trazer algo", conta. Há um sótão na casa da mãe, de cerca de 150 metros quadrados, com armários e maleiros. Tudo foi projetado já se pensando na quantidade de roupas e quinquilharias diversas, acumuladas não só por Ana Paula, mas também por sua mãe, que guarda tecidos, revistas, roupas e aviamentos. "Não jogamos nada fora. Tem até meus brinquedos antigos lá", conta a filha. Ana Paula tem cerca de 100 pares de sapatos, e sua mãe, uns 300. "Recentemente usei um par de verniz antigo." As antigas revistas de moda ela garante que usa como referência em seus trabalhos de faculdade. No apartamento de São Paulo, há um armário de cinco portas onde guarda pertences seus. "Meu pai acha isso uma palhaçada", diz Ana Paula, que ainda usa uma parte do armário dele. Talvez seja uma herança de família: foi sua avó materna quem começou com a mania de guardar tudo. "Ela era muito pobre e, depois que se casou e melhorou de vida, não conseguia se desfazer de nada." A funcionária pública aposentada Maria Cecília Perretti Russi, de 59 anos, tem mania de guardar móveis e peças decorativas. Na chácara onde mora com o marido e os filhos, em Itapeva, interior de São Paulo, há um quartinho no meio do jardim só para suas peças antigas - móveis, objetos de decoração, louças, bibelôs, recortes de revistas, cadernos de receitas de família e até botões. "Sou muito voltada para o passado", fala ela, que começou a guardar objetos desde que se casou, há 33 anos. "Costumo achar que tudo tem conserto, não gosto da idéia de jogar as coisas fora." NOSTALGIA Os psicólogos avaliam essa mania de guardar coisas antigas como uma dificuldade de lidar com perdas. Mas o simples fato de acumular objetos como lembranças do passado não representa nenhuma patologia. Para a psicóloga Rosa Maria Macedo, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), tudo depende da personalidade e experiências pessoais. "Por outro lado, guardar tudo pode indicar uma dificuldade para renovar a vida", observa. "É como se essas pessoas quisessem prolongar as coisas boas, conservando esses objetos que um dia lhes foram úteis. Isso tem a ver com rigidez e dificuldade para mudar, ou até uma insegurança em relação às situações novas." Acumular coisas só representa um problema se começa a interferir na vida pessoal. "Quando, por exemplo, a pessoa enche o espaço útil e não tem mais área para novas aquisições." A psicóloga lembra do caso, divulgado pela mídia há um ano, da senhora que guardava até lixo em casa, como - neste caso sim - algo doentio. O psiquiatra Miguel Jorge, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é da mesma opinião. "Isso se torna um problema apenas quando prejudica a atividade cotidiana - trabalho, estudo e relacionamentos - e toma o papel primordial na vida da pessoa", fala. "Quando se torna uma patologia, a mania está relacionada ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). É um dos sintomas possíveis."