Nada como um DiCaprio depois de um Al Gore

Marcos Sá Corrêa* - O Estado de S.Paulo

A pergunta veio, de chofre, por ligação interurbana: "Não acha que é pura mania de imitação as pessoas, aqui no Rio Grande do Sul, pararem de jogar o palito do picolé na praia depois de ver um filme americano?" O americano, claro, só podia ser Al Gore, que ganhou o prêmio Nobel da Paz neste ano. E o filme, seu documentário Uma Verdade Inconveniente, que içou na internet uma penca de histórias como a de Charles Whitwam, o dono de uma transportadora que agora usa biodiesel em seus caminhões, e Gary Durnham, o cético de Nashville que, aos 71 anos, passou a bater de porta em porta na cidade como pregador ambiental. Whitwam e Durnham pertencem à lista dos "heróis climáticos" de Gore, gente que se converteu à conservação dos recursos naturais depois de encarar na tela a tal verdade inconveniente.Em princípio, não é preciso ser brasileiro para imitar americano. Logo, todo gaúcho que deixou de jogar na praia o palito do picolé estava em boa companhia naquele debate promovido dias atrás por uma rádio de Porto Alegre. Mas, apanhado de surpresa, com o locutor avisando que o telefonema estava no ar, o jeito foi sair pela tangente: "Americano por americano, é melhor imitar o Al Gore do que o George W. Bush". Seria mais fácil responder se a pergunta chegasse nesta semana, no lançamento de A Última Hora, nova superprodução da temporada de catástrofes climáticas. Como filme, não tem o peso do depoimento de Gore. Mas ganha em leveza, com a narração de Leonardo DiCaprio. O ator, fora os outros trunfos, pode passar aqui por uma espécie de gaúcho honoris causa,depois do longo namoro com Gisele Bündchen. E não tem papas na língua para dizer que salvar a Terra é mantê-la bonita. O filme de DiCaprio desembarcou no Brasil escoltado por dois selos de seriedade ambiental, o da Fundação Boticário e o do Instituto Akatu. Invoca o testemunho de políticos e cientistas. Conjura tempestades em seus 90 e poucos minutos de projeção. Mostra desde o Furacão Katrina devastando o sul dos Estados Unidos a ursos polares fuçando lixo no Ártico. Descreve uma "convergência de crises" produzindo 150 milhões de "refugiados do clima". Mas não deixa o público sair da platéia com a impressão de que a luz não vai acender no fim do espetáculo. Há cenas de sobra com crianças colhendo nas mãos a água limpa da chuva e um convite explícito para fazer alguma coisa por "este singular planeta azul". Isso, dito por DiCaprio, deve ter lá seu poder de persuasão. FIM DE MONÓLOGO E é melhor um Leonardo DiCaprio na mão do que dois ornitólogos voando. Os assuntos do meio ambiente estão ficando complicados demais para ser conversa só de ambientalista. Precisam de ar livre. Foi um pintor chamado George Catlin que inventou no século 19 os parques nacionais, provavelmente a idéia mais prática que o mundo já teve sobre conservação da natureza. Os filmes são bons sinais. Como os anúncios quase diários de que mais um banco, uma fábrica de automóveis ou uma companhia de aviação resolveu seqüestrar carbono, sejam quais forem seus motivos. Acabou o monólogo da ministra do Meio Ambiente - que, aliás, ultimamente anda mesmo meio calada. * É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)