Na prateleira, o real valor da castanha da Amazônia

Andrea Vialli - O Estado de S.Paulo

Modelo de negócios da Ouro Verde Amazônia, baseado no comércio justo e extrativismo sustentável, atraiu investidor bem no meio da crise

A Ouro Verde Amazônia, empresa de produtos culinários feitos de castanhas-do-pará, tem uma trajetória muito parecida com a de milhares de microempresas que são criadas todos os anos no Brasil. Nasceu como um projeto de vida do ex-veterinário e ex-professor universitário Luiz Laranja, que acreditou no potencial de mercado dos produtos da Amazônia extraídos de modo sustentável. Com a mulher, Ana Luisa Riva, Laranja largou São Paulo e se embrenhou no interior do Mato Grosso. O destino era Alta Floresta , a 800 km de Cuiabá. Lá, o casal criou a Ouro Verde Amazônia, em 2001, com a ideia de resgatar a tradicional cadeia da castanha, desenvolvendo as comunidades extrativistas. Os percalços foram muitos. "Não havia banco que nos desse um financiamento. Os gerentes diziam que o modelo de negócios não se enquadrava em nenhum parâmetro", conta Laranja. "Eles preferiam dar crédito para os pecuaristas." No final de 2008 a sorte mudou. No auge da crise financeira, Laranja encontrou um investidor. Não era banco nem fundo de investimento. O grupo Orsa, que atua nas áreas de celulose, papel e produtos florestais, se interessou pelo modelo de negócios da empresa do ex-veterinário, que também tem a proposta de remunerar os produtores de castanha de forma mais justa, eliminando os atravessadores. O aporte de recursos, cuja soma foi mantida em sigilo, deu novo fôlego à empresa. O atual leque de produtos de castanha - azeite extravirgem, granulado e creme - vai crescer. E as comunidades já receberam um prêmio pela castanha que colhem e beneficiam. O quilo foi comprado por R$ 1,30, enquanto o mercado não pagou mais que R$ 0,70 na última safra. "Agora, estamos procurando desenvolver novas cadeias produtivas na Amazônia, como a do açaí e do cacau", diz o empreendedor. O investimento prevê ainda uma nova unidade produtiva no Vale do Jari, divisa entre os Estados do Pará e Amapá. "A empresa está caminhando mais rápido. Estamos animados com a safra de 2010." NAS GÔNDOLAS Os desafios ainda são grandes. Os produtos da Ouro Verde Amazônia ainda são difíceis de serem encontrados nos supermercados. A distribuição está concentrada em empórios de alta gastronomia e lojas especializadas em produtos naturais. "Estamos em pontos de venda sofisticados, mas sem escala. Os produtos são conhecidos entre os chefs de cozinha. Mas eu quero popularizar a castanha extraída de modo sustentável." Um passo nesse sentido foi dado recentemente. A empresa firmou um contrato com a rede varejista Carrefour e aguarda os primeiros pedidos. A exportação também está nos planos: distribuidores da França e da Itália já demonstraram interesse nos produtos amazônicos. Como todo empreendimento que olha longe, a Ouro Verde Amazônia quer se antecipar às novas exigências do mercado. Conquistou o selo Ecocert, de orgânicos, um passaporte para o mercado americano. Agora vai investir na certificação Fair Trade (comércio justo), que atesta a correta remuneração das comunidades extrativistas. "O mercado europeu já não valoriza tanto o selo de orgânico. A nova fronteira é o Fair Trade, que estamos buscando", diz Laranja.