Na crise, é hora de ser ainda mais responsável

Giovana Girardi - O Estado de S.Paulo

Entrevista: Rachel Biderman e Roberta Simonetti, pesquisadoras da FGV; especialistas defendem que recessão não deve pôr em risco movimento em prol de um modelo econômico mais justo

A crise econômica que se alastra pelo planeta gera um paradoxo aparentemente impossível de solucionar. Enquanto governos buscam incentivar o consumo, de modo a tentar evitar uma recessão, é consenso que o consumismo desmedido está na origem da crise. E que um dos passos para alcançar o tão desejado desenvolvimento sustentável é reavaliar o modelo econômico, consumindo com menos exagero. Diante deste cenário, fica a dúvida: a crise pode trazer uma oportunidade para que empresas e governos comecem a trilhar o caminho da sustentabilidade ou ela pode pôr esse novo modelo em risco? Em entrevista ao Estado, as especialistas do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas - Rachel Biderman, coordenadora-adjunta, e Roberta Simonetti, do Programa de Sustentabilidade Empresarial - tratam do assunto. Como a recessão e falta de crédito generalizadas devem afetar os programas de sustentabilidade de empresas e as políticas governamentais nesse sentido? A sustentabilidade vai sobreviver à crise? Rachel - Esta é uma crise também da sustentabilidade. É uma crise da ética empresarial, do meio ambiente, dos direitos humanos e sociais, da governança corporativa, de tudo que está sob o guarda-chuva da sustentabilidade. Se a sustentabilidade fosse enraizada nas organizações, a crise não estaria acontecendo. E o movimento em prol da sustentabilidade empresarial e governamental tem que se fortalecer ainda mais a partir de agora. Não é momento de preocupação sobre eventual arrefecimento do movimento. É a chance de trazer o debate à tona, de chamar à responsabilidade os tomadores de decisão. E jogar luz sobre bons exemplos, para que se tornem guias desta nova fase da história da humanidade. Roberta - A edição da Economist The World in 2009 afirma que este será o ano de teste da sustentabilidade, de ver quais empresas e governos estão levando a sério a questão. Empresas que de fato incorporaram a sustentabilidade à sua estratégia verão oportunidades. Mas as que ainda compreendem a sustentabilidade apenas como instrumento de marketing ou de apoio a ações sociais terão de cortar despesas e isso pode afetar o poder de venda do que acreditam ser sua imagem de sustentabilidade, e que boa parte do público ainda acredita. O que será também uma oportunidade de separar o joio do trigo. Mas a ideia de que sustentabilidade necessariamente implica em aumento de custos não é verdadeira. Há muitas iniciativas que podem gerar redução de custos e aumento de receitas. O custo é maior quando há desenvolvimento de novas tecnologias. Mas ainda que recursos para isso sejam mais escassos com a crise, é preciso lembrar que sustentabilidade implica em longo prazo e que o custo de não fazer pode ser maior do que o de fazer. Mas na prática diária é isso mesmo que tem se observado ou, no susto, o comportamento padrão deve continuar em torno do velho, e doente modelo econômico? Roberta - Permanecer no conforto do conhecido é de fato mais fácil. Ainda mais quando a mudança é profunda e mexe com crenças e sistemas cristalizados, ainda que falidos. Dizer que o comportamento deve ser profundamente modificado, que precisamos fazer uma "moratória populacional", consumir menos (é claro que isso vale para os 20% que consomem 80% de tudo que é produzido), objetivar lucros menores e se satisfazer com outros resultados positivos dos negócios e crescer menos (ou até decrescer) soa como heresia para a grande maioria. Mas vemos um número crescente de pessoas (físicas e jurídicas) percebendo a necessidade de rever nossos valores, de agir de maneira ética e responsável, considerando tudo ao nosso redor. Rachel - Não existe mais espaço para o modelo econômico em decadência. Esta crise é estrutural, e sua superação não depende de um reforço nas vigas, mas da troca das colunas que sustentam a casa. Há crises simultâneas, entrelaçadas, como a financeira, a energética, as mudanças climáticas, pobreza, segurança, a geopolítica do petróleo e as guerras daí decorrentes. A resolução de tudo isso depende da tomada de consciência e imediata ação de cidadãos, empresários, governantes. Entretanto alguns setores que adotam práticas sustentáveis mostram sinais de retração, como o de madeira certificada, cujas vendas caíram. Esse tipo de produto ainda é mais caro, e em época de crise, o que parece contar é o preço. Rachel - Preço é um fator relevante, mas não é o único. Na Europa o consumo de produtos sustentáveis já se tornou mais comum, a produção de muitos bens já se tornou competitiva. No Brasil também temos exemplos de produtos sustentáveis já competitivos. Não podemos esquecer, no entanto, que o preço do não-sustentável esconde uma série de externalidades que são pagas pela sociedade. Uma madeira não certificada, de origem ilegal, gera um custo que é o desmatamento ilegal de remanescente de vegetação, emissão de gases-estufa, queimadas que geram internações de crianças e idosos em hospitais, e alguém esta pagando esse custo - dentre as atuais e futuras gerações. Então qual é o preço da madeira não certificada? Roberta - Esse custo maior não é necessariamente verdade. Conhecemos o caso de uma empresa que conseguiu madeira certificada, atravessando o país de norte a sul, com um preço inferior ao da madeira não certificada. Não faz muito tempo que as geladeiras eram fabricadas usando CFC e, possivelmente, sua produção era mais barata do que usar outro gás, até porque era preciso pesquisar, desenvolver tecnologias. Hoje não há mais CFC porque houve mobilização, legislação, uma vontade de mudar que deu certo. O mesmo poderia ocorrer com a madeira. Um mundo mais sustentável passa necessariamente por sociedades que consumam menos. Só que em época de recessão o que mais se ouve de governantes é um incentivo, quase um pedido, ao aumento do consumo. Como se lida com esse paradoxo? Roberta - Essa é uma contradição fruto do analfabetismo ecológico que precisa ser erradicado. Nossos governantes, e não só eles, não perceberam sequer a insustentabilidade do nosso modelo, não se deram conta que os recursos são realmente finitos, que a capacidade de suporte da vida foi superada e que estamos em rota de colisão com o nosso fim. Ainda há a crença no modelo econômico vigente onde "com trabalho e capital suficientes podemos fazer crescer ilimitadamente o bolo e dividi-lo quando estiver suficientemente grande". Mas é como se estivéssemos usando um fermento "mais moderno" que faz o bolo parecer maior, mas esse aumento é virtual, pois a quantidade de nutrientes não se altera. Isso nos remete a algumas questões centrais da crise: foram criados produtos e mercados sofisticados que leigos não entendem - e muitos financistas tampouco - baseados em ilusões, ou seja, não existe riqueza subjacente. O benefício desta crise é mostrar essas inconsistências. O modelo econômico atual terá de implodir para que esta mudança ocorra? Rachel - Já está acontecendo nos bastidores uma tremenda corrida tecnológica para ver quem será o detentor da nova fórmula energética que impulsionará o motor da economia globalizada daqui para frente. Estamos vivendo os estertores da economia do petróleo. As crises climática e energética trouxeram ao primeiro plano a necessidade de mudança da base energética que faz as economias se movimentarem. Os dias do petróleo estão contados e quem dominar a próxima tecnologia - ou as próximas tecnologias - terá o poder econômico e, consequentemente, político. O novo modelo produtivo e econômico dependerá de quanto será investido na superação do petróleo e em quanto tempo isso ocorrerá. Roberta - A refilmagem de O Dia em Que a Terra Parou (1951) nos aponta a ideia de que "o ser humano muda apenas quando está à beira do precipício". É provável. E nós já estamos lá. A questão é saber quantos de nós já percebeu a aproximação do precipício. A mudança radical é uma revolução, uma mudança de paradigma. E um importante paradigma que precisa ser mudado é o do crescimento. Não podemos continuar crescendo, seja economicamente, seja fisicamente. Ultrapassamos os limites da Terra para atender os padrões de consumo da sociedade moderna, ainda que de sua minoria. Quem é: Rachel Biderman É coordenadora-adjunta do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (São Paulo) Especialista em mudanças do clima e em consumo sustentável, trabalha com o Observatório do Clima, rede de ONGs e movimentos sociais que propõem políticas sobre o tema Quem é: Roberta Simonetti É coordenadora do Programa Sustentabilidade Empresarial do GVCes Doutora em Ciência pelo Instituto de Física da USP, coordena o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa, que reúne empresas comprometidas com sustentabilidade e responsabilidade social