Na costa cearense, o maior parque eólico

Dário Cosme Lima - O Estado de S.Paulo

Em seu escritório, no 3º andar de um edifício da Rua Tabatinguera, a apenas duas quadras da Praça da Sé, no centro de São Paulo, Marcello Storrer trabalha com um objetivo definido: construir o maior parque eólico do mundo, em pleno Oceano Atlântico, a 28 quilômetros da costa do Ceará. O empreendimento ganhou o nome de Projeto Asa Branca e poderá tornar-se realidade em 2010.Presidente da empresa Eólica Industrial, Storrer está à frente da iniciativa que visa a transformar a força dos ventos em energia elétrica, algo muito comum em países do norte da Europa, mas raro no Brasil. Torres eólicas conectadas a geradores serão instaladas em bancos de areia submersos entre 5 e 20 metros, onde os ventos possuem maior uniformidade de força e direção.A previsão de Storrer é de que a futura Usina Eólica Marítima Asa Branca, na cidade de Pecém, tenha uma potência final instalada de 10.500 megawatts. A produção tornaria o Nordeste auto-suficiente em energia elétrica, sem recorrer a novas usinas hidrelétricas. E o excedente poderia ser consumido em outras localidades por meio do Sistema Interligado Nacional, que permite a permutação de energia entre as diferentes regiões brasileiras. "Será possível fazermos o seguro (contra) apagão do Nordeste sem queimar um só litro de combustível fóssil", explica Storrer.O empresário tem viajado em busca de parcerias. Segundo ele, além de utilizar uma fonte renovável e limpa de energia, o Projeto Asa Branca cumpre um segundo papel socioambiental: complementa a produção energética das atuais hidrelétricas do Rio São Francisco durante os oito meses de seca do ano, de maio a dezembro, poupando a água dos reservatórios para projetos de irrigação. "O objetivo é conseguir preços competitivos para a energia elétrica de fonte eólica e, ainda, colaborar com o aumento da área irrigada no sertão nordestino", afirma.Uma fábrica de torres eólicas será implantada no complexo industrial do Porto do Pecém. Com investimentos de R$ 90 milhões, a unidade vai suprir a demanda de equipamentos da Usina Asa Branca. Há até mesmo planos para exportação. O início das operações está previsto para agosto de 2008, com geração de 200 empregos diretos e 600 indiretos.Pesquisas do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis (Ider), sediado em Fortaleza, indicam que mais da metade do potencial eólico brasileiro está no Nordeste, especialmente na faixa litorânea. No entanto, também existem complexos eólicos no Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais.Atualmente, as tabelas divulgadas pelo Ministério de Minas e Energia não especificam a energia eólica como contribuição relevante à matriz energética brasileira. Mas Storrer, que nas horas de lazer é velejador, se diz "apaixonado pelo vento". Ele vê em seu projeto uma "expressiva contribuição ao balanço energético nacional", mesmo sem ter tido ajuda de governos.Apesar de enfrentar barreiras, o empreendedor é otimista: "Tenho passado noites sem sono e recebido ameaças de pessoas ligadas ao setor elétrico tradicional. Mas estou à frente deste projeto desde o início e vou até o fim. O lugar do Brasil é entre os maiores do mundo em energia eólica." * Dário de Alencar Cosme Lima é aluno da Unifieo