''Muitas vezes temos de comprar o mais barato, não o melhor''

Lígia Formenti, BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

Paulo Buss: ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz; prestes a assumir o centro de relações internacionais da Fiocruz, o sanitarista fala sobre problemas com preços e prazos

Prestes a assumir um novo posto na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que presidiu nos últimos oito anos, o sanitarista Paulo Buss diz haver empresas farmacêuticas que promovem concorrência desleal ao baixarem preços de medicamentos para "desacreditar os concorrentes". Em entrevista ao Estado, ele também cita "questões tributárias" como motivo para o preço dos genéricos antiaids brasileiros não ter caído após a matéria-prima ficar mais barata e diz que regras de licitação obrigam a comprar "o mais barato, não o melhor". Buss vai comandar um centro de relações internacionais da instituição, a ser criado pelo novo presidente, Paulo Gadelha, que tomou posse ontem. "A nova unidade irá concentrar atividades que hoje são desempenhadas, mas de forma dispersa", explica Buss. O objetivo é que o centro trabalhe com Itamaraty e Ministério da Saúde para ampliar cooperações internacionais. Questionado sobre o que o País ganha, é enfático: "Prestígio."Por que aumentar as cooperações internacionais? Com mais viagens internacionais, há maior risco de proliferação de doenças. A crise econômica é outro exemplo. Trará repercussão imediata na saúde da população desassistida. Certamente haverá maior mortalidade infantil, maior desnutrição. E para temas globais é preciso esforços internacionais. Qual será a atuação desse novo centro? Vamos ampliar a formação de recursos humanos e produção de produtos, com ênfase em países sul-americanos e africanos. É preciso ampliar a produção de conhecimento nessa área de diplomacia da saúde. Mas o que o País lucra? Prestígio. Saúde pode ser cartão de visitas para essa área de cooperação. E há dentro do governo a percepção de que esse prestígio é essencial para uma meta há tempos traçada: o ingresso do Brasil no conselho de segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). O que mudou na Fundação Oswaldo Cruz nos 8 anos da sua gestão? Éramos uma instituição com vocação para pesquisa e formação. Agora somos fortes também no desenvolvimento tecnológico. Assinei nestes anos 3.700 certificados de mestrado e doutorado, ampliamos a produção de vacinas, testes, medicamentos. Ampliamos a oferta de material de gestão hospitalar. Mas os preços cobrados, por exemplo, por antirretrovirais são maiores do que genéricos produzidos por outros países. Preços internacionais não têm cor, não têm nação. As empresas são destituídas de preocupação com demanda. Pensam no preço, concorrência. Reduzem preços para acabar com a competição. Antes de anunciarmos a produção da insulina com tecnologia da Ucrânia, o preço cobrado pela dose era de US$ 10. Quando anunciamos a incorporação da tecnologia, o mesmo produto passou a custar US$ 5,56. É uma estratégia para desacreditar os concorrentes. Por que os preços dos genéricos de aids brasileiros não caíram com a redução do preço da matéria-prima? Talvez problemas de alíquota de importação, questões tributárias. Mas há um investimento no setor público e o retorno fica no setor público também.Nos últimos anos houve problemas com prazos para entrada no mercado de medicamentos e testes. Por que é tão difícil seguir o cronograma? Temos de respeitar a lei de licitação. Muitas vezes isso significa que temos de comprar o mais barato, não o melhor. Há o risco de virem produtos com qualidade aquém do desejado, de termos de mandar de volta.