Mr. Blackberry e o inimigo do celular

- O Estado de S.Paulo

Marcelo Tas e Sérgio Augusto discutem, pelo telefone, os prós e contras das novas tecnologias de comunicação

O celular caiu no gosto do brasileiro. Mas será que não caiu demais? Quem já não teve experiências constrangedoras por causa do entusiasmo (alheio) com o celular? Para comentar aspectos, digamos, comportamentais das novas tecnologias da comunicação, o Estado convidou dois supostos antípodas: o jornalista e apresentador de TV Marcelo Tas, fã convicto do Blackberry, e o jornalista e escritor Sérgio Augusto, que odeia celular. Descobrimos que nem Tas é tão entusiasmado assim com o mundo da conectividade nem Sérgio Augusto é tão crítico. Abaixo, um trecho editado da conversa (telefônica) entre os dois: Confira o áudio da conversa entre Marcelo Tas e Sérgio AugustoMarcelo Tas - Alô, Sérgio.Sérgio Augusto - Marcelo Tas! Saudades. Quando eu te vi a gente usava calças curtas, eu não tinha nem computador (risos). Raramente vou a São Paulo. O trânsito me apavora. Meu grande sonho é que um dia transformem o telefone em teletransporte. Tas - Aliás, Sérgio, queria deixar bem claro desde o início que não sou um deslumbrado com tecnologia, mas admirador de algumas delas. Uma pra mim que ainda não foi aperfeiçoada é o telefone, que é esta ferramenta que estamos usando agora.S.A. - Quero deixar claro também que não sou ludita, uso computador desde 1989, quando comecei a escrever um livro sobre chanchada na velha máquina de escrever. Fazia o primeiro capítulo e iam ficando aquelas coisas coladas, papel grosso de cola, de trechos arrancados. Fiquei indignado e comprei um computador. Aí veio a frase idiota: "Como é que alguém consegue escrever livro sem computador?" E 99% da cultura ocidental já estava pronta, escrita a mão ou em máquina de escrever. Tas - Muitos dos nossos colegas demonizaram o computador quando ele chegou. Saíram em defesa da máquina de escrever, a Olivetti maravilhosa!S.A. - Por mim tinha pulado do cinzel lá das cavernas direto pro computador.Tas - A máquina de escrever foi uma ejaculação precoce. Era um computador com impressora acoplada, né? Só que não gravava nem interagia. Muita gente boa cometeu um equívoco fundamental: confundir computador com máquina de escrever. A revolução do computador foi como ferramenta de comunicação. Não como máquina de escrever moderninha.S.A. - Um dos maiores usuários de computador que conheço é o João Ubaldo. E ele uma vez ofereceu: "Tenho aqui uma coisinha que faz o computador ter o barulho da máquina, incluindo o cliiim... do sininho." Eu falei: "Você tá maluco? Minha velha Olímpia, a caixa dela é onde eu apoio meu pé, virou banquinho, eu não quero esse barulho, não." Tas - Sérgio, você tá me saindo um entusiasta da tecnologia. Me venderam o peixe errado. O que você não usa? S.A. - Celular. Tomei ódio. Nunca tive. Trabalho em casa, não tenho filho, então não preciso. O celular te põe em contato com o mundo e eu gosto de me esconder. Uso secretária eletrônica. Tas - Então, sua secretária eletrônica é um anti-spam de seres humanos... S.A. - Isso. Acho celular útil para pessoas que têm filho. Tas - É o meu caso, Sérgio, tenho três. Mas a combinação de celular com pais paranóicos é um horror. Criam uma armadilha para si mesmos. Dão o celular pro filho e tentam controlar todos os passos do infeliz. Uma vez ia levar as crianças para tomar um sorvete do outro lado da rua. A amiguinha da minha filha disse: "Tenho de telefonar. Mamãe falou que, se a gente fosse sair, era para ligar pra ela." Hoje uso mais celular para responder e-mail e acessar informação. Tô usando o Blackberry, que me permite ficar mais móvel e continuar trabalhando.S.A. - Tem um parêntese de elogio aqui. Na minha casa de Petrópolis não tem banda larga. Apelei pro notebook, uma plaquinha 3G. Não chega a ser banda larga, mas funciona. Tas - Concordo. O celular poderia ter ido direto pra 3G sem aquela fase em que tentou inutilmente falar. Conversar no celular é muito chato. Em poucos minutos, o ouvido fica fritando.S.A. - Já vi em restaurante: patricinhas conversando com as amigas, três mesas do lado. Tenho horror. Uma vez eu tava indo ao sul da França e no trem até Avignon senta um rapaz do lado, abre o notebook, começa a trabalhar e pega o celular. Montou escritório ali no trem, vendia ações em Paris, falava em inglês. Fiquei louco.Tas - E o taxista que agora fala no celular o tempo todo? Você participa compulsoriamente da vida afetiva dele: a bronca da mulher, a outra que ele tá cantando, a amante?S.A. - Nada que aporrinhe o outro pode usar na frente do outro, pra mim isso é elementar. Eu já vi em teatro. Tem o aviso pra desligar o celular. De repente, toca. O cara esqueceu de desligar ou não sabe mexer.Tas - E tem gente que sai falando mesmo, no meio do filme. O pessoal reclama e ele nem aí.S.A. - Agora não tem mais, mas já vi em cinema cara contando pro amigo o filme - "Não sabe o que tá perdendo, é bacana pra burro."Tas - Olha, em resumo é isso: temos que aprender a usar as novas ferramentas com elegância. Senão arruinamos a nossa vida já no café da manhã: podemos usar a faca de pão para cortar o pão ou o pescoço da mulher amada.S.A. - É, o segredo tá aí. Com bom senso, a tecnologia, desde a roda, se torna uma coisa útil. Tas - Qual a invenção do homem que você acha mais sensacional, Sérgio? S.A - Água encanada - depois de refletir muito, não é resposta improvisada... Já imaginou você ter de buscar água no poço, fazer cocô no mato, o inferno que ia ser no dia-a-dia?