Movimento quer lei federal para catar coco

Lima Campos (MA) - O Estado de S.Paulo

Mulheres ainda têm de entregar parte da coleta ou correr risco de serem expulsas das fazendas

Na época da colheita, a tripla jornada de uma quebradeira de coco babaçu começa de madrugada. Não dá para sair e deixar o marido e os filhos sem comida. Lá pelas 7 horas, casa arrumada, elas saem em bando para catar o fruto. Levam o pacará nas costas certas de que o cesto vai voltar cheio de amêndoas já separadas, coisa de 10 a 15 quilos em dia bom. É trabalho que exige força, mas homem não tem as mãos hábeis de uma mulher. Eles ficam no roçado. Quando retornam, fim de tarde, já encontram o lar limpo, as crianças de banho tomado e um punhado de amêndoas separadas que vão complementar a renda da família. Francisca das Chagas Cardoso Ribeiro, de 21 anos, é quebradeira como a mãe, Maria Cardoso, de 61, e duas irmãs. Gostaria de estudar, já que quebrar dez quilos de coco e receber no fim do dia R$ 8 não dá futuro. Mas o estudo é sonho, a realidade é ganhar dinheiro para cuidar do filho Flavio Ribeiro da Silva, de 10 meses. "Só com o coco não está dando. O pai dele não tem serviço." Dona Maria emenda: "Quebração de coco adoece demais, é uma acabação da mulher. A gente só quebra porque tem precisão." No município de Lima Campos, no Maranhão, existe uma comunidade que vive só do babaçu. É São José dos Mouras, onde moram Francisca, a mãe, as irmãs e dezenas de outras quebradeiras. Na região do Médio Mearim, populações dependem do babaçu para sobreviver. A pecuária rende dinheiro, mas não emprega muita gente. O gado precisa de pastos largos tanto quanto do capim. Ambos requerem a destruição das palmeiras, de preferência quando novas, as pindovas. Por isso, as mulheres lutam tanto para garantir acesso ao produto. Há dez anos, a prefeitura de Lago do Junco (MA) sancionou a primeira lei de acesso livre aos babaçuais. Quase uma revolução no conceito de propriedade privada. Fazendeiros continuam donos da terra, mas ficaram proibidos de impedir as quebradeiras de entrar para coletar o coco. Quatorze outros municípios seguiram a toada, pressionados pelo Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu. Só que elas querem mais. Defendem uma lei federal, que garanta o extrativismo. "A lei é só um passo; sem ela vira uma barbárie", afirma o deputado federal Domingos Dutra (PT), autor do projeto pró-quebradeiras em tramitação no Congresso. "Se o babaçu for aproveitado pelo agronegócio, aí é que a violência contra as mulheres vai aumentar. Elas vão ser impedidas de ter acesso às palmeiras." O parlamentar é filho de uma quebradeira, Raimunda Rosa, de Saco das Almas, município de Buriti de Inácio Vaz (MA). Não ignora a dificuldade em aprovar uma lei federal do gênero. Muitos parlamentares têm outros interesses. Mas lembra que, há alguns anos, elas viviam "na carreira", como as quebradeiras chamam quando têm de correr fugindo dos peões das fazendas. "Tivemos de travar lutas internas, conscientizar a comunidade, e só assim garantir a nossa sobrevivência", diz Aline Raquel Chagas, de 27 anos. A quebradeira, também professora em São José dos Mouras, lembra da briga que tiveram para expulsar atravessadores que queriam recolher o coco para vender para as carvoarias. Uma quebradeira ganha, em média, meio salário mínimo por mês. Com renda baixa, economizam o quanto podem. Gás é luxo, cozinham mesmo é com o carvão do babaçu. Casa nova tem teto forrado com folhas da palmeira. E o fruto é a base do cardápio das famílias. Fritura e tempero de salada é com o azeite produzido em muitas comunidades. Em Lago do Junco, a cidade pioneira nas leis municipais do babaçu livre, existe uma cooperativa com mais de 160 associados. Antes, as mulheres da comunidade precisavam quebrar dez quilos de coco para comprar um quilo de arroz. Hoje, com o beneficiamento, a proporção é de um para um. É o salto que fez o babaçu ser exportado para fabricantes de cosméticos da Europa e dos Estados Unidos, como Body Shop e Aveda. Mulheres do mundo todo embelezadas graças às quebradeiras brasileiras.