Morre o pianista e compositor Oscar Peterson, um gigante do jazz

Lauro Lisboa Garcia - O Estado de S.Paulo

Músico canadense, que passou por diversas fases do gênero, tinha 82 anos e sofreu de complicações renais

Morreu no domingo à noite em sua casa, em Toronto, no Canadá, o pianista e compositor de jazz Oscar Peterson. A notícia só foi divulgada ontem pelas redes de televisão CBC (Canadian Broadcasting Corp) e Radio-Cadana. O músico estava com 82 anos e sofria de complicações renais, que o levaram à morte. Peterson era um dos músicos de jazz - e um dos últimos gigantes do gênero - mais conhecidos e respeitados no mundo, incluindo o Brasil, onde se apresentou diversas vezes, desde 1978. A última foi em 1998, quando, além de dois concertos no Teatro Municipal, tocou para uma multidão no Parque do Ibirapuera. Em todas as vezes que falou com jornalistas brasileiros, Peterson lamentava que o jazz estava morrendo, pelo menos a forma do jazz do qual ele era um dos maiores representantes, o jazz "puro", como ele dizia, feito com prazer, muito improviso e apuro técnico de gênio. "Infelizmente o jazz sobrevive à custa de alguns poucos nomes importantes como Count Basie, Dizzy Gillespie, Roy Aldrich. Tem sido valorizado também porque muita gente importante já morreu e alguns jovens se dão conta do que perderam e por isso fazem regravações", disse na primeira vinda ao País, em janeiro de 1978, quando. "O que me mantém tocando piano até hoje é a crença na música de Duke Ellington, Dizzy Gillespie, Count Basie, Ella Fitzgerald e alguns outros músicos especiais como esses", afirmou em 1998, lembrando das críticas que havia feito às experimentações de certos músicos com eletrônica e que "alguns teimavam chamar de jazz".Peterson tinha formação erudita e durante décadas esteve situado no topo da cadeia dos pianistas de jazz com sua técnica mágica, marcada por velocidade, força e elegância ao mesmo tempo, seus solos frenéticos e um suingue absurdo nas duas mãos. Nascido em Montreal, no dia 15 de agosto de 1925, ele começou a estudar música aos seis anos, desistindo do pistom um ano depois, por causa de problemas pulmonares.Aos 14 anos, depois de conquistar o primeiro lugar num concurso amador, Peterson ganhou 15 minutos num programa semanal de rádio em Montreal. Aos 18 anos começou a tocar profissionalmente e se tornou o primeiro músico negro a integrar uma orquestra popular, a de Johnny Holmes, em Quebec, com a qual aprendeu a compor e escrever arranjos.A carreira internacional, a partir dos Estados Unidos, começou a deslanchar em 1949, aos 24 anos, quando o lendário produtor americano Norman Granz o levou para Nova York. Peterson foi apresentado como convidado surpresa em um concerto no Carnegie Hall. Sua atuação foi de tal maneira impressionante que repercutiu de imediato e o colocou definitivamente no olimpo. A partir de então passou acompanhar a grande dama do jazz Ella Fitzgerald, com quem dividiu álbuns e concertos antológicos. "Se tirarmos a fronteira imaginária que separa os dois países, teremos a mesma cultura, os mesmos discos, as mesmas estações de rádio. Por isso, não há nada de estranho em um canadense ser tão identificado com o jazz", disse certa vez.Ella não foi a única, a partir dos anos 50, Peterson se uniu a diversos gigantes do jazz em discos e concertos. Entre eles estão Billie Holiday, Carmen McRae, Louis Armstrong, Lester Young, Count Basie. A extensa lista engrossa com nomes como Charlie Parker, Quincy Jones, Stan Getz, Coleman Hawkins, Dizzy Gillespie, Roy Eldridge, Freddie Hubbard.Peterson formou seu primeiro trio em 1952 com o guitarrista Herb Ellis e o baixista Louis Hayes. O outro, que durou de 1959 a 1965, tinha Ray Brown no baixo e Barney Kessel na guitarra, e foi o que teve os maiores êxitos. Com o fim do terceiro trio, formado por Sam Jones no baixo e Bob Durham na bateria, Peterson passou a produzir projetos mais intimistas, em solos e duos, como os que gravou com o guitarrista Joe Pass e o violinista Stephane Grapelli.Por diversas vezes foi eleito o melhor pianista de jazz por publicações como a Down Beat. Depois de cinco décadas de sucesso, Peterson sofreu um acidente vascular cerebral em 1993, durante um concerto em Nova York. O músico conseguiu se recuperar, mas passou a compor e tocar em ritmo mais lento. Peterson deixa uma vasta e importante discografia, uma pequena parte da qual continua em catálogo em CD no Brasil (veja quadro à direita). Entre seus títulos mais marcantes estão os songbooks de Duke Ellington, George Gershwin, Irving Berlin e Richard Rodgers, que gravou em 1952, Oscar Peterson Plays Count Basie (1955), Night Train (1962), West Side Story (1962), My Favorite Instument (1968), além de outros em que atuou como acompanhante, como o histórico encontro de Ella Fitzgerald com Louis Armstrong.