Morre o jornalista José Onofre

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

Ele trabalhou no ?Estado?, Zero Hora e CartaCapital

Morreu ontem, em Porto Alegre, José Onofre Krob Jardim, ex-editor do Caderno 2 e ex-editor executivo do Estado. José Onofre estava internado na UTI do Hospital São Francisco da Santa Casa de Porto Alegre (RS) havia 45 dias devido a uma crise de diabete e faleceu em decorrência de parada cardiorrespiratória. Tinha 66 anos e será enterrado hoje às 15h, no cemitério João XXIII. José Onofre trabalhou no Estado de 1988 a 1992. Uma passagem relativamente breve, mas muito importante, marcada por seu talento como jornalista cultural. Montou uma equipe baseada na excelência do texto, com estrelas como Paulo Francis, que ele trouxe para o jornal. Em sua carreira, José Onofre trabalhou em vários órgãos de imprensa, além do Estado, como Zero Hora e CartaCapital, seu último emprego. Na revista, assinou durante anos a deliciosa coluna Na Calçada da Memória, na qual costumava exercitar-se em uma de suas paixões maiores - o cinema, americano em especial. Onofre era cinéfilo de carteirinha. Acompanhava tudo o que podia, mas sua preferência era a época de ouro do western. Era devoto de John Ford e John Wayne e também dos grandes filmes de gângsteres. Sentia-se exasperado quando jornalistas jovens sob seu comando ignoravam seus ídolos. Entrou para o folclore da redação do Estado a bronca que deu no repórter que lhe comunicou a morte de um certo Don Siegel e, inocentemente, lhe perguntou se isso valia alguma matéria. Para Onofre, não conhecer a importância do diretor da série Dirty Harry, com Clint Eastwood, era crime de lesa-cinema. José Onofre foi jornalista brilhante e a qualidade do seu texto era reconhecida no meio jornalístico. Era dono de prosa seca, de raros, mas precisos adjetivos, texto de quem tinha Ernest Hemingway no altar dos autores prediletos. Mesmo quando ocupou postos de comando, Onofre nunca deixou de escrever, exercitando-se naquilo de que mais gostava e sentia como vocação. Foi também autor de um romance raro, Sobras de Guerra (L&PM, 1982), um primor de concisão e impacto sobre o Brasil da ditadura. Lacônico, José Onofre evitava falar sobre o livro, que tinha entre seus admiradores Luis Fernando Verissimo. Merece reedição urgente.