Morre o crítico Saul Galvão

- O Estado de S.Paulo

Expert em vinhos e comida, o jornalista começou a escrever no Grupo Estado sobre gastronomia em 1978

Se as estatísticas servissem para medir a importância de alguém em sua atividade, por este simples parâmetro Saul Galvão já seria grande. Foram milhares de restaurantes e vinhos resenhados durante mais de 30 anos de dedicação à crítica gastronômica, sem contar algumas centenas de receitas sugeridas aos leitores e uma dezena de livros. Mas Saul Galvão, que morreu ontem aos 67 anos, não era apenas um jornalista de números expressivos. Seu trabalho como expert no ofício de informar sobre comida e bebida era acima de tudo relevante. Mas descomplicado: ele sabia se comunicar com amadores, especialistas, profissionais.

 

Veja também:

blog Blog de Saul Galvão

blog Luiz Américo: 'Salve, cavalheiro'

blog Luiz Horta: R.I.P. Saul Galvão

Saul Galvão de França Júnior nasceu em Jaú - "modéstia à parte", ele dizia - em 3 de abril de 1942. Filho de fazendeiros, aprendeu a formar o gosto em mesas com muitos assados e itens clássicos da culinária do interior paulista. Veio para São Paulo em 1960, para estudar direito no Largo São Francisco, mas não se formou. E, se por um lado as letras jurídicas saíram da sua vida, por outro entrou o jornalismo, um meio mais imediato de ganhar o sustento. O primeiro registro profissional no Grupo Estado é de 1965.

Nos anos seguintes, sempre entre o Jornal da Tarde e o Estado, Saul passou por editorias como a de Política e a Internacional. Em 1978, surgiu então o crítico de restaurantes: o Jornal da Tarde queria um substituto para Paulo Cotrim, um dos precursores da atividade em São Paulo. Saul foi o escolhido para a tarefa. Funcionou tão bem que, em pouco tempo, ele estava só se dedicando à comida.

Saul ia muito à França (nos anos 90, comprou um apartamento em Paris) e, aproveitando as viagens, fez estágios em restaurantes estrelados, como o Troisgros. Continuou aprimorando os dotes de culinarista e, em 1987, lançou o primeiro livro, Os Prazeres da Mesa, com receitas de cozinhas paulistanas famosas. Paralelamente, ele se aprofundava nos vinhos, outra paixão. E Saul se transformou em um dos maiores experts do Brasil, a ponto de, em 1992, lançar o já clássico Tintos e Brancos.

Nos últimos anos, ele escreveu religiosamente no Paladar (às quintas), sobre vinhos, e no Guia (às sextas), sobre restaurantes. Tornou-se uma grife, no melhor sentido do termo, com seu jeito expansivo e seus bigodes fartos. E cativou os leitores com informações precisas, comentários consistentes e uma devoção sincera aos prazeres da vida. "O negócio é passar bem" virou seu slogan, propagado no jornal, na Rádio Eldorado, em seu blog.

A personalidade forte, as tiradas afiadas, não foram abaladas nem nos últimos dois anos, quando começou a se tratar de um câncer. Saul morreu ontem, de complicações advindas da doença, e foi velado e enterrado na sua querida Jaú. Será sempre lembrado na redação pelo temperamento festivo e pela generosidade em dividir seu imenso conhecimento com os colegas. E por um apetite à toda prova.

COMIDA, VINHOS, LIVROS

1942 - Saul Galvão nasceu em Jaú, numa família de fazendeiros ligados ao café

1960 - Vem para São Paulo, para estudar direito

1965 - Começa a trabalhar como jornalista no Grupo Estado

1978 - Depois de passar por editorias como Política e Internacional, vira crítico de restaurantes do Jornal da Tarde

1987 - Lança o livro Os Prazeres da Mesa, com receitas de grandes restaurantes da cidade

1992 - Publica sua obra mais conhecida, Tintos e Brancos, que virou referência para profissionais e amadores. Um reedição atualizada saiu em 2006

1999 - Lança A Cozinha e seus Vinhos, com receitas e sugestões de harmonização

2005 - A coluna Tintos e Brancos, antes publicada no Caderno 2, começa a sair no Paladar

REPERCUSSÃO

Ennio Federico

Enófilo

"É muito triste perder um amigo e companheiro. Saul era o Robert Parker brasileiro"

Belarmino Iglesias Filho Restaurateur

"Ele tinha uma percepção, uma biblioteca nasal que jamais vi igual. Ele marcou uma era"

Erick Jacquin

Chef de cozinha

"A morte de Saul me fez lembrar os dias em que cheguei ao Brasil. Ele foi o primeiro crítico a me entrevistar, há 15 anos"

J. A. Dias Lopes

Colunista do "Estado"

"O Saul era, indiscutivelmente, o maior provador de vinhos do Brasil"

Rogério Fasano

Restaurateur

"Quando era preciso criticar, ele apontava defeitos com grande generosidade porque sabia que por trás do trabalho havia o esforço de muitas pessoas"

Otávio Piva de Albuquerque

Empresário

"Para mim, o Saul Galvão foi a pessoa mais importante no mercado de vinhos que conheci. Um homem muito correto que prezava pela ética, seriedade, pelo trabalho e tinha um conhecimento fantástico"

Ciro Lilla

Empresário

"Justiça seja feita. Todo mundo lembra do Saul da comida e do vinho, mas poucos se lembram do Saul do café, que criticava duramente o cafezinho dos restaurantes, ajudando a levantar o nível da bebida servida"

José Osvaldo Amarante

Diretor da Mistral

"Saul era um pessoa muito engraçada e quando bebia ficava ainda mais. Fizemos várias viagens e ele era sempre uma fonte de alegria"