Morre o compositor Karlheinz Stockhausen

João Luiz Sampaio - O Estado de S.Paulo

Pioneiro da música eletroacústica, o alemão estava com 79 anos

Para o grande público, o compositor alemão Karlheinz Stockhausen era um excêntrico - quando esteve em São Paulo, em 2001, tocou a peça Oktophonie, um concerto de um homem só, em uma sala onde o espectador estava todo cercado por caixas acústicas (pelos lados, por baixo, por cima, na frente e atrás). Outras de suas obras partiam de inusitados bancos de sons, que armazenavam desde gritos de animais a barulhos industriais editados. Isso, claro, para não falar das peças em que o público ajudava os músicos a construir a partitura, durante os concertos. O que de um lado é curioso, no entanto, de outro ajuda a compreender a importância e a essência da criação musical de Stockhausen, que morreu quarta-feira na Alemanha, aos 79 anos. A causa da morte não foi divulgada.Stockhausen estudou musicologia, filosofia e literatura na Universidade de Colônia no início dos anos 50; em seguida, mudou-se para Paris, onde passou a estudar com o compositor Olivier Messiaen. A fama, no entanto, viria ao longo dos anos 60 e 70, quando foi um dos criadores e principais participantes do Festival Música Nova, realizado em Darmstadt, no interior da Alemanha. O festival, naquele momento, era o local para onde convergia a nata da composição musical internacional. Ali, a vanguarda pensava maneiras de subverter completamente a lógica da composição, implodindo os conceitos e regras da música tradicional e investigando novas linguagens. É nesse contexto que precisa ser compreendida a obra de Stockhausen. Foram, ao todo, 280 obras, 140 delas dedicadas à linguagem eletroacústica, aquela que sugere o casamento do som tradicional, dos instrumentos, com material sonoro previamente gravado, trabalhado e alterado eletronicamente. No mundo de hoje, povoado por DJs e afins, pode não parecer muita coisa. Naquele momento, no entanto, as pesquisas sonoras de Stockhausen eram o que de mais novo havia no cenário internacional, extravasando inclusive o mundo da música erudita - John Lennon, Frank Zappa e David Bowie são apenas alguns dos músicos que, no universo pop, reconheciam em seu trabalho enorme influência de Stockhausen. Na música brasileira, também não foram poucos os influenciados - de Rogério Duprat e Gilberto Mendes, que criou a edição nacional do Festival Música Nova, a representantes de gerações mais recentes, como Arrigo Barnabé.Nos últimos anos, a trajetória de Stockhausen foi marcada por uma forte polêmica - ele afirmou, no final de 2001, que o 11 de Setembro havia sido "a maior obra de arte que se pode imaginar". Ele mais tarde pediu desculpas pelo comentário, mas diversos teatros cancelaram encomendas de obras suas, em especial nos EUA.