Molécula é agente da metástase

Cristina Amorim - O Estado de S.Paulo

MicroRNA é crucial na propagação de célula cancerosa por organismo

Uma pequena molécula desempenha grande papel na metástase, como mostra um estudo descrito na revista Nature (www.nature.com). Capitaneado pelo americano Robert Weinberg, do Instituto Whitehead, eles ligam a ação do microRNA com a migração do câncer pelo corpo. O RNA é um dos principais atores da genética, formado por uma fita de bases químicas. Na forma de mensageiro, ele carrega as informações do seu primo DNA para fora do núcleo da célula, onde se formam os "tijolos" do corpo, as proteínas. O microRNA, por sua vez, parece um recorte dessa fita: tem apenas cerca de 20 bases. Ainda assim, consegue bloquear o trabalho do RNA mensageiro. Estudos recentes ligam essa molécula diminuta com a morte de células, por exemplo. EVIDÊNCIAS Weinberg (virtual candidato ao Nobel por seu trabalho sobre genes ligados ao câncer) e outros dois cientistas descrevem como o microRNA desempenha um papel crucial na metástase. Para começo de conversa, eles analisaram diversos tecidos cancerosos de mama, alguns mais malignos do que outros. Um microRNA específico, chamado miR-10b, era especialmente evidente nas amostras com grande potencial metastático, ou seja, que lançaram células doentes pelo corpo. O miR-10b apareceu em 9 de 18 mulheres que tinham um câncer de mama desse tipo, enquanto era quase ausente em 5 pacientes com tipos menos agressivos. "Uma associação (do microRNA) com um dado clínico não é trivial", diz a bióloga molecular Dirce Maria Carraro, pesquisadora do Hospital A.C. Camargo. "É um trabalho muito bom." O grupo testou sua teoria em camundongos. Os animais receberam células cancerígenas humanas com o miR-10b, que se espalharam pelos vasos sanguíneos. Por outro lado, quando foram injetadas células de câncer humanas sem a molécula, nenhuma migração aconteceu. Para os pesquisadores, esse microRNA afeta a atuação de um gene chamado twist, ligado à metástase por outros estudos - inclusive do próprio Weinberg. Mas eles não sabem exatamente o que acontece dentro das células para produzir comportamentos tão distintos. "É ainda possível que o miR-10b controle alvos adicionais", escreve na Nature. O próximo passo é descobrir os alvos, para que seja possível determinar o grau de perigo que determinado tumor oferece, como age e como contê-lo.