Ministro vai à TV para tentar conter corrida à vacina da febre amarela

Lígia Formenti, BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

Estoques podem ser insuficientes se a procura mantiver o ritmo atual; José Gomes temporão nega risco de epidemia

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, fez um pronunciamento ontem em rádio e TV para tentar conter a crescente corrida da população para vacinar-se contra a febre amarela. Caso se instale nacionalmente o fenômeno registrado em Brasília, os estoques podem ser insuficientes. Em duas semanas, 37% da população da capital foi imunizada - 893 mil pessoas. Se a procura nacional for semelhante, serão necessárias 68 milhões de doses - quase dois anos da produção atual."Só procure os postos de saúde ser morar ou for visitar as áreas de risco e nunca se vacinou ou foi vacinado antes de 1999", afirmou Temporão. A mensagem já havia sido dada pelo ministro na semana passada, mas não surtiu o efeito esperado. A ocorrência de casos em Goiás, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, além do Distrito Federal, desencadeou a busca pelos postos. Desde sexta-feira, o registro de casos em investigação subiu de 15 para 24. Na última semana, também aumentou o número de registros de mortes de animais com suspeita de febre amarela, primeiro sinal antes que uma epidemia se instale entre humanos.Até agora, só dois casos suspeitos do tipo silvestre (veja quadro) foram confirmados e cinco, descartados. No pronunciamento, o ministro reforçou que não há risco de epidemia. O último caso do tipo urbano foi registrado em 1942. Em São Paulo e outras cidades do País, pessoas aguardaram horas em fila no fim de semana para serem imunizadas (leia ao lado). Na capital federal, estima-se que boa parte da população que procurou os postos foi imunizada desnecessariamente, pois já havia sido vacinada depois de 1999. O ministro disse que não faltará vacina. "Os postos de saúde estão sendo abastecidos e autoridades sanitárias estão preparadas para atender quem realmente precisa tomar a vacina." Depois da notificação de mortes suspeitas de macacos, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) disponibilizou 2 milhões a mais de vacinas contra a doença. Com isso, foram enviados neste mês para todo o Brasil 3,238 milhões de doses. Durante todo o ano passado, foram 11,5 milhões de doses.A Fiocruz pode ampliar a produção mensal em 20%. A capacidade máxima passaria de 2,4 milhões de doses (que devem ser produzidas no próximo mês) para 2,88 milhões. Um número significativo, mas não suficiente para atender a uma procura em massa. Em casos extremos, a produção poderia ser aumentada um pouco mais. Porém, isso afetaria a fabricação de outras vacinas do Programa Nacional de Imunização, como a contra o sarampo. Uma saída seria a compra de outro produtor, o Pasteur, na França. Em 2007, o País iniciou o registro de importação, mas o processo leva tempo. A compra levaria meses para ser concluída.JUSTIÇAOntem, Marny Selma de Mendonça, de 31 anos, a viúva do agricultor espanhol, Salvador Perez de la Cal, de 41, morto anteontem com suspeita da febre, disse que a vacina não foi exigida nem quando ele saiu da Espanha nem quando entrou no Brasil. "Os governos omitiram informações", afirmou. "Vou à Justiça para responsabilizar esses governos." COLABOROU RUBENS SANTOS