Ministério acusa Pfizer de dificultar acesso a remédio

Fabiane Leite - O Estado de S.Paulo

Maraviroc só pode ser aplicado após teste em um laboratório conveniado

O Ministério da Saúde afirma que o laboratório Pfizer está dificultando o acesso a um novo remédio contra a aids, indicado para pacientes que desenvolvem múltipla resistência a outros tratamentos. Segundo o órgão, para saber se a droga será eficaz, o paciente tem de fazer um teste que só é oferecido por uma empresa com sede nos EUA e que mantém relações comerciais com a farmacêutica.O Programa Nacional de DST e Aids do ministério apontou "conflito de interesses" na situação. Para a direção do programa, não é correto que a indicação do uso do remédio seja feita apenas por uma empresa - ainda mais uma que tem relações com quem vende o produto. Sempre haveria suspeita sobre a real necessidade de um paciente utilizar a droga. O programa quer que outros laboratórios possam fazer o teste de indicação do medicamento. "Um problema muito grande é o fato de haver só um laboratório habilitado para os testes no mundo e com o qual a Pfizer mantém relações comerciais. A questão é dar acesso a um remédio cujo teste para prescrição vai ser feito por um laboratório privado e que é contratado do produtor (a empresa realizou testes da droga para a Pfizer durante a fase de estudos)", disse a diretora do programa nacional, Mariângela Simão. "Não podemos incorporar um medicamento que requer o envio de sangue para os EUA. Precisamos de um produto que tenha uma fácil indicação", continuou.A droga, o Maraviroc, ainda não foi incluída no rol de medicamentos dentro do consenso sobre terapias para portadores do HIV. No fim do ano passado, destacou a diretora, o programa nacional incorporou um outro remédio também usado em casos de múltipla resistência, o Darunavir, cuja distribuição deverá começar neste mês. O governo previa gastar mais de R$ 900 milhões em medicamentos contra a aids no ano passado para o tratamento de 180 mil pessoas que vivem com o HIV.Em nota, a Pfizer informou não ter "maiores detalhes sobre o conflito de interesses que foi mencionado". "Esse assunto será abordado quando do próximo contato com o governo."NOVA CLASSERegistrado há três meses no Brasil, o Maraviroc faz parte de uma nova classe de remédios que agem antes da entrada do HIV na células. No entanto, só é eficaz se o vírus que infectou o paciente tiver um receptor específico. Só assim o medicamento poderá ligar-se ao HIV e impedir sua ação. Para verificar se o paciente tem esse co-receptor, é preciso o exame hoje feito apenas nos EUA, explica Juvêncio Furtado, integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia. "É tão complicado que não há hoje como fazer o teste no País. Alguns laboratórios estão desenvolvendo essa técnica ainda." Furtado calcula que até 20 mil pacientes poderiam ser beneficiados com o novo remédio. Segundo o programa oficial, ainda não há estimativa sobre quantos poderiam receber a terapia.