México reduz nível de alerta; China isola estrangeiros

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo

Com isso, gripe suína provoca crise entre governos, órgãos internacionais e empresas

O vírus A (H1N1) também motivou crise entre governos. Ontem, o México reduziu o nível de alerta, o que gerou dura resposta da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para a entidade, há risco de o vírus voltar para "se vingar". A gripe também atingiu as relações entre México e China, que está isolando cidadãos de países mais afetados, como o Canadá, mesmo que não apresentem sintomas. Em Pequim, após o primeiro caso na Ásia - o de um mexicano que chegou a Hong Kong após escala em Xangai -, cerca de 70 mexicanos foram isolados em um hotel perto do aeroporto. Caso semelhante ocorreu em Changchun, nordeste do país, com 29 canadenses. Ontem, o Canadá suspendeu temporariamente os voos charter para o México.O governo mexicano chamou a medida chinesa de discriminatória e prometeu buscar seus cidadãos. A China enviou um avião ao México para buscar cerca de 200 chineses. O México também criticou países como Argentina, Peru, Equador e Cuba por bloquear voos. O governo mexicano anunciou que estava conseguindo controlar o vírus, portanto reduzia o nível de alerta. O presidente Felipe Calderón também anunciou que as aulas no país recomeçam na quinta-feira para cursos de ensino superior e na segunda para o ensino básico. Amanhã, devem reabrir na Cidade do México estabelecimentos como restaurantes.A diretora da OMS, Margaret Chan, alertou que "uma segunda onda do vírus seria o maior de todos os surtos que o mundo enfrentou no século 21". O porta-voz da OMS, Gregory Hartl, afirmou que "a decisão do México não muda nossa avaliação. Cada país é livre para fazer o que julgar apropriado. Mas os vírus vêm em ondas". Keiji Fukuda, vice-diretor da OMS, lembra que "as pessoas imaginam que uma pandemia se prolifera no mundo ao mesmo tempo. Mas não é assim. Vai depender da temporada do inverno e de como o vírus reage em outras regiões. Todos precisam se preparar e aumentar o monitoramento." Ele também diz que "vai levar tempo para entender a epidemiologia da doença no México" e lembra que há indícios de que o vírus circula no país há meses. COMÉRCIOEnquanto isso, negociações confidenciais para a compra de antivirais se transformaram em disputas entre países emergentes, empresas e países ricos, enquanto o compartilhamento de vacinas acaba em polêmica. Além disso, 20 países adotaram embargos contra a carne suína do México e dos Estados Unidos, um mercado avaliado em US$ 26 bilhões.A pressão dos produtores foi tão forte que, há uma semana, a OMS aceitou deixar de chamar a doença de gripe suína. O México fez questão de evitar que a doença fosse batizada com seu nome. A solução foi adotar apenas o nome científico.Mas no setor de remédios a polêmica promete ser explosiva. A OMS está escondendo até a lista dos 72 países aos quais prometeu remédios. O Brasil avisou que não aceita dar recursos para comprar remédios patenteados.Nos últimos dias, Chan acionou os principais fundos para comprar remédios. Mas ela irritou muitos ao propor, em reuniões confidenciais, a compra de remédios patenteados da multinacional suíça Roche. Jorge Bermudez, ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz e hoje secretário-geral da Unitaid, pressionou Chan para que inclua genéricos. Pelos cálculos de Bermudez, antivirais genéricos produzidos na Índia pela Cipla custariam 60% menos que o produto da Roche. Na Índia, porém, a Roche abriu processo atacando a Cipla por plágio. Mas na Índia o Tamiflu não está patenteado. Nos EUA, a estratégia do governo é tirar o foco da questão das patentes. "Vamos conversar com a OMS para garantir como é que podemos ter uma cooperação", afirmou a subsecretária de Estado, Esther Brimmen. No fim de semana, a OMS revelou que distribuiu 2,4 milhões de doses de Tamiflu a 72 países. Os números são considerados insignificantes. Só os EUA têm estoque de 50 milhões de doses, contra 33 milhões na França e 9 milhões no Brasil. COM AFP