Menos palmadas e mais educação!

Mary del Priore* - O Estado de S.Paulo

"Lentamente, aposentou-se a palmatória e o banco do desprezo"

Está na ordem do dia a "lei da palmada". A sociedade reagiu: de acordo com sondagens, 54% são contra. O governo contra atacou. Ele, apenas, deseja que o Brasil esteja entre 30 países "civilizados", onde não existe castigo físico contra a criança e os Direitos Humanos são respeitados.

 

 

 

Há pelo menos duzentos anos, autoridades tentam redefinir o estatuto da criança. Por volta de 1900, ela foi elevada ao papel central: amparada pela pediatria, puericultura e pedagogia, tornou-se o "reizinho da família". Nessa mesma época, começou o combate ao trabalho infantil e ao abandono de crianças pelas ruas: coisa nada "civilizada"! A reação oficial veio na forma da fundação de instituições de proteção à infância desamparada, assim como das primeiras escolas de ensino profissionalizante.

 

 

 

Sim, pois no início do século 20, "ser civilizado" significava tornar-se um trabalhador produtivo. E a proteção à infância, uma forma de controlar os rebeldes e improdutivos. Nos colégios e instituições disciplinares, começou-se a discutir a substituição da disciplina violenta por aquela "inteligente", preocupada em construir cidadãos modernos. A ideia era moldar o caráter, e não o físico infantil. Lentamente, aposentou-se a palmatória e o banco do desprezo - onde se sentavam com letreiros os vadios, comilões e desordeiros.

 

 

 

Mas como fazer "cidadãos modernos" dentro de casa? Ali, todas as crianças eram educadas sob "rédeas curtas" e a obediência era norma. No caso de transgressão, castigos eram considerados normais. Buscava-se imprimir nos pequenos um comportamento adulto - sobretudo entre pequenos trabalhadores do campo e das cidades. Os pais não castigavam por maldade ou pelo prazer de cometer violências. Havia, sim, uma preocupação pedagógica: era necessário fazer a criança ter responsabilidades. "O castigo era para o seu bem", "para aprender a ser gente". Tais expressões justificavam o processo de disciplinarização, usado para mantê-la dentro dos códigos de boa conduta e da ambicionada imagem de "civilidade".

 

 

 

Ora, o castigo pedagógico era uma tradição. Na Colônia, por exemplo, Padre Anchieta já recomendava "castigar vícios, com açoites". Para moralistas como o baiano Nuno Pereira, palmadas eram uma forma de "não deixar a perder os filhos". No século 18, durante as Aulas Régias, embrião de escolas públicas, a palmatória era o instrumento de correção. Seu uso perdurou até o final do século 19. E ainda no Primeiro Congresso à Infância, realizado em 1922, havia quem defendesse o castigo corporal: "a criança ligará a ideia do bem ao que lhe é permitido, e de mal ao que lhe é vedado, e na linguagem familiar será bonita, se não desagradar, e feia no caso contrário."

 

 

 

Se há duzentos anos as autoridades tivessem compreendido que "civilizar-se" não era questão de castigar ou não crianças, mas de dar-lhes educação, boas escolas, professores bem formados, bem pagos e valorizados pela sociedade, não estaríamos discutindo, hoje, a "lei da palmada". E, para orgulho de nossas Relações Exteriores, estaríamos sentados à mesa dos países civilizados. Menos palmada? Sim. Mas, sobretudo, mais e melhores escolas, por favor. 

 

 

 

*MARY DEL PRIORE É HISTORIADORA