Medicina valida concurso apesar de veto da USP

Emilio Sant?Anna e Fabiane Leite - O Estado de S.Paulo

Comissão indicou irregularidade em seleção para professor do Incor

A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) decidiu validar ontem o resultado de um concurso para professor titular de cardiologia clínica no Instituto do Coração (Incor), apesar do veto da Comissão de Justiça da universidade. A decisão causou polêmica entre os candidatos preteridos, que em parte apontam supostas irregularidades no processo.A validade do concurso já havia sido colocada em dúvida por dois professores, os cardiologistas Charles Mady e Edimar Alcides Bocchi, que decidiram recorrer à Congregação da FMUSP e, por consequência, à comissão, após a confirmação de uma atitude supostamente incomum do presidente da banca examinadora do processo seletivo.Segundo os dois candidatos, no dia 26 de novembro de 2008 o presidente da banca, Noedir Stolf, teria telefonado para Mady explicando que ele não seria o escolhido. O que chamou a atenção dos médicos foi o fato de isso ter ocorrido antes do final do concurso e antes de todos os concorrentes serem examinados.Conforme apurou o Estado, a decisão da congregação é incomum. Mesmo tendo autonomia para decidir, o normal é que a faculdade acompanhe a indicação da Comissão de Justiça, que, segundo seu relatório, afirma que "o presidente da comissão julgadora dispensou tratamento diferenciado a um dos candidatos ao comunicar-se com ele (...). Assim, salvo melhor juízo, entendemos que o julgamento do concurso encontra-se viciado, recomendamos o provimento do recurso e a não homologação do relatório final aprovado pela comissão julgadora".Segundo uma carta aberta escrita por Mady, o presidente da banca lhe confidenciou que o escolhido para a vaga seria o cardiologista Protásio Lemos da Luz. A conversa teria sido confirmada pelo próprio Stolf em uma reunião após o concurso. Ontem, durante a reunião da congregação, segundo pessoas presentes ao encontro, o próprio diretor da Faculdade de Medicina e presidente da congregação, Marcos Boulos, reconheceu que houve comunicação da banca com o candidato, mas a maioria dos professores considerou este um procedimento normal. O Estado tentou entrar em contato com a direção do Incor - da qual Stolf faz parte - e com o presidente da Congregação da FMUSP, Marcos Boulos. No entanto, eles não foram encontrados. Também procurados pela reportagem, os professores que concorreram ao cargo de professor titular preferiram não se manifestar.Os procuradores responsáveis pelo parecer também não foram encontrados pela reportagem.Um dos candidatos afirmou, porém, que em último caso pretende recorrer à Justiça. "Espero que a faculdade reconheça e corrija seu erro, pois quando ela falha no cumprimento da lei é um péssimo exemplo", afirma o médico, que pede para não ser identificado. "O que aconteceu aqui foi uma decisão movida por motivos políticos."Já o candidato aprovado reitera que a decisão da congregação é soberana e deve ser respeitada. "O concurso foi examinado pela faculdade, que não encontrou nada de excepcional", diz Lemos. "E que eu saiba, o mérito da escolha não estava sendo questionado." Uma das motivações para a escolha de Lemos, diz um dos candidatos, é o processo de mudança da Pneumologia do Hospital das Clínicas para o Incor. Lemos seria um dos apoiadores da mudança. Cardiologistas do hospital são contrários à alteração e recorreram ao Ministério Público Estadual, que atualmente analisa o caso. A transferência da pneumologia para o Incor, afirmam, deverá sobrecarregar ainda mais o hospital, que já tem filas de pacientes para determinados procedimentos eletivos. A direção do HC, no entanto, entende que as áreas são próximas e que poderão trabalhar juntas.