Médica espera há 11 anos por indenização

Lígia Formenti, BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

Lair Macedo foi pioneira do programa de aids no Brasil

Uma das pessoas mais importantes para a criação e sucesso do Programa Nacional de DST-Aids, a médica Lair Guerra de Macedo aguarda há 11 anos uma indenização pelo acidente que sofreu enquanto estava a serviço do governo. Em agosto de 1996, então coordenadora do programa, Lair participava de um congresso em Recife quando o carro em que estava foi prensado por um ônibus e outro veículo. Sofreu traumatismo craniano, ficou em coma. Hoje apresenta uma série de seqüelas que a impede de trabalhar: dificuldades de fala, falhas importantes na memória recente. "Ela se lembra com facilidade do primeiro beijo, da primeira bronca que levou. Mas não consegue contar o enredo do filme que acabou de assistir", conta a filha, a publicitária Ana Heloísa Rodrigues. Quando acompanha o noticiário, reconhece políticos e técnicos com quem trabalhou. "Ela se lembra de todos, mas ninguém se lembra dela", diz a filha. Em 1999, pouco antes de o acidente completar três anos , a família de Lair ingressou com uma ação contra o INSS e a União. De lá para cá, a Justiça decidiu apenas que a União não deve fazer parte da ação, porque Lair exercia um cargo em comissão, sem vínculo efetivo com a administração. Ela pede indenização por invalidez, já que não pode mais trabalhar.Há dois anos acompanhando o caso, o advogado Alan Nelson Gouvêa reconhece que a ação apresentou falhas, o processo não foi acompanhado como se deveria. "É muito comum nestes casos a parte contrária usar todos os artifícios para protelar a sentença, o que exige um acompanhamento rígido dos advogados. Mas nada justifica o fato de o processo estar onde está há quase 10 anos", disse. Ele observa, por exemplo, que há um ano o processo aguarda a sentença do juiz. "E isto é apenas a primeira etapa. Depois certamente haverá um longo caminho até a indenização." Lair, hoje com 64 anos, começou a trabalhar no Ministério da Saúde em 1985. Sobreviveu a dez ministros. Pouco antes do acidente, conta a filha, Lair já havia pedido afastamento para o então ministro Adib Jatene. "Ela queria fazer consultoria, trabalhar em um organismo internacional. O ministro pediu para ela ficar. No mês seguinte, veio o acidente", diz Ana. O ex-coordenador do Programa Nacional de DST-Aids Pedro Chequer se assustou ao saber que ela não recebeu nenhuma indenização pelo acidente. "É estarrecedor. O programa deve muito de seu sucesso a ela, uma mulher com inesgotável capacidade de trabalho", afirma Chequer. Ele assumiu o posto de Lair logo depois do acidente, mas durante anos foi seu adjunto. "Ela foi fundamental para o primeiro financiamento feito pelo Banco Mundial", recorda. Com recursos do empréstimo, foi possível executar uma série de ações de prevenção em grupos suscetíveis. Foi também na gestão de Lair que um passo importante - e extremamente polêmico, na época - foi dado: a distribuição gratuita de seringas descartáveis para usuários de drogas. A medida, usada hoje no Brasil e em outros países, integra a chamada política de redução de danos: com a distribuição, sanitaristas tentam reduzir a prática de uso comunitário de seringas e, assim, reduzir o risco de transmissão do HIV. Aos 64 anos, Lair vive com Ana numa casa no Lago Sul. Em 2002, depois de mais de 20 anos de casada, divorciou-se. Os outros quatro filhos, Lair visita com alguma freqüência. Todos os dias pela manhã, em companhia de um funcionário, Lair sai para caminhar em um parque. "Para ela, certamente é a melhor parte do dia", diz a filha. Por enquanto, não há expectativas de que ela possa voltar ao trabalho. "Sem memória recente, não há como desempenhar atividades", diz Ana. Para ela, o essencial é que a mãe receba em vida a indenização que lhe cabe. "Somos cinco filhos, temos condições razoáveis. Mas o justo seria que minha mãe aproveitasse a indenização. Era ela que estava no carro. Ela que sofreu um corte na vida."