Maternidade cresce apenas na adolescência

Felipe Werneck e Liege Albuquerque - O Estado de S.Paulo

Em uma década, índice de jovens entre 15 e 17 anos com ao menos um filho aumentou de 6,9% para 7,6%

No ano passado, 392 mil adolescentes de 15 a 17 anos tiveram pelo menos um filho no País. A Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que, no período de dez anos, a proporção de adolescentes com filhos aumentou de 6,9% para 7,6%. Foi a única faixa etária que registrou crescimento. "Acho escandaloso, uma coisa surpreendente", declarou a gerente de Indicadores Sociais do IBGE, Ana Lucia Saboia, que coordenou o estudo. Os dados mostram que a quantidade de filhos é maior nas famílias mais pobres. Em dez anos, a proporção de mulheres de 15 a 49 anos de idade com pelo menos um filho que viviam com rendimento familiar de até meio salário mínimo (R$190) per capita aumentou de 69,3% para 74%. No caso das mulheres com rendimento familiar per capita de dois salários mínimos (R$ 760) ou mais, houve redução, de 54,5% para 47,7%. Ou seja, a queda da taxa de fecundidade no País (2 filhos por mulher em 2006) ocorreu principalmente entre aquelas que vivem em famílias com melhores condições financeiras. A maior proporção de adolescentes com filhos ocorreu na região Norte (11,2%). Em 2006, das 32,7 milhões de mulheres com filhos no País, 30,9% tinham um filho, 33,3%, dois filhos, e 35,8%, três filhos ou mais. Em 1996, os porcentuais eram de 25%, 30% e 44,9%. Em maio, o governo federal anunciou um programa de planejamento familiar, com medidas como ampliação de métodos anticoncepcionais. "O número de filhos por mulher vem diminuindo no País. Só cresceu na adolescência. Nas regiões mais desenvolvidas, é uma opção ter menos filhos", avalia a economista Cristiane Soares, técnica do IBGE responsável pelo tema Mulheres na Síntese. "Não é uma questão de dizer se é bom ou ruim. A maternidade tem impactos nas condições de vida, no mercado de trabalho. Principalmente nas famílias mais pobres, onde se concentram os casos daquelas com mais de três filhos, sem aparato de creches, postos de saúde." NO AMAZONAS Um levantamento feito de janeiro a julho pela Maternidade Ana Braga, a maior do Amazonas, mostrou que as adolescentes grávidas representam cerca de 15% das mulheres atendidas. No período, quase 900 adolescentes tiveram filhos ou foram submetidas à curetagem pós-aborto na unidade. No levantamento, é apontado que a maioria tem apenas o ensino fundamental (1º grau) incompleto e mesmo as que já atingiram os 18 anos não têm atividade profissional. Das 886 jovens que procuraram a maternidade no primeiro semestre, 723 tinham entre 16 e 18 anos e 194 tinham entre 13 e 15 anos. Duas tinham somente 12 anos. A mãe da adolescente J.M.S., de 14 anos, ao saber da gravidez da filha, queria que ela abortasse. "Não tive coragem de matar meu filho", contou a garota, que deu à luz há 20 dias um bebê prematuro, que está na UTI da Maternidade Ana Braga. O namorado de J. "sumiu'''' ao saber da gravidez. "A gente namorava havia apenas dois meses", conta. A adolescente, que cursava a 6ª série, diz que pretende voltar a estudar no ano que vem. "Agora que nasceu, minha mãe disse que vai me ajudar a criar o bebê." Como no início da gravidez M.B., de 16 anos, teve uma infecção urinária não tratada, seu bebê teve de tomar antibióticos e foi levado para a UTI assim que nasceu. Ontem, os dois tiveram alta do hospital. Ronald vai morar com a mãe, com o pai, de 19 anos, e com a avó paterna. "Minha mãe não aceitou bem até agora e vou morar junto com meu namorado."