Marcos Piangers: 'Falar 'eu te amo' é libertador'

Danielle Sanches, especial para o Estado - O Estado de S.Paulo

Jornalista e escritor fala sobre a dificuldade que muitos pais têm em falar a frase para seus filhos em novo livro

Marcos Piangers é pai de Anita, 13 anos; e Aurora, 5 anos. 

Marcos Piangers é pai de Anita, 13 anos; e Aurora, 5 anos.  Foto: Foto: Giselle Sauer

O que é ser pai nos dias de hoje? Essa pergunta foi um dos motivos que levou o jornalista e apresentador - e hoje também escritor e palestrante - Marcos Piangers a escrever uma coluna em um jornal contando um pouco da sua experiência com a primeira filha, Anita (hoje com 13 anos). 

O que era para ser um apanhado de textos divertidos e ao mesmo tempo reflexivos acabou se transformando no livro O papai é pop, publicado em 2015 e que já vendeu mais de 100 mil exemplares. "Achei que só minha mãe ia ler e ia vender umas 300 cópias", disse, rindo, em entrevista ao E+. O sucesso foi tanto que, em 2016, ele lançou O papai é pop 2, que entrou para o ranking nacional de livros mais vendidos no País. 

Piangers fala sobre algo que aprendeu na prática, já que ele foi criado apenas pela mãe, Eloísa. O pai, "uma pessoa comum", como ele mesmo conta, não quis participar da vida do menino, nascido em Florianópolis em 1980. Aprender a ser pai sem ter tido um exemplo enquanto crescia foi, segundo ele, desafiador e “parte do processo de cura” do abandono que ele e sua mãe sofreram. 

Embora o assunto "paternidade" seja um tema recorrente em seus vídeos, ele também acabou enveredando por outros temas igualmente profundos e tocantes, como família, relacionamentos, luto e amor. É sobre este último seu mais recente livro, O Poder do Eu Te Amo, lançado no início de maio. Baseado em um vídeo com mais de 50 milhões de visualizações, Piangers mostra a importância de se falar 'eu te amo' para as pessoas com quem nos importamos. "É algo que parece óbvio, mas às vezes não é", diz. 

Talvez permitir-se falar com o coração seja o segredo de tanto sucesso. Piangers acumula mais de três milhões de seguidores no Facebook e meio milhão no Instagram. Teve livros traduzidos e comercializados na Espanha, em Portugal, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Casado com a também jornalista e escritora Ana Cardoso, autora do livro A mamãe é rock, Piangers é famoso por desconstruir a imagem de pai distante e durão e pregar que os homens participem, sim, da criação dos filhos e das tarefas domésticas. "Falar sobre isso nos ajuda a nos reconectarmos com a paternidade", acredita. 

Confira a entrevista completa a seguir. 

Na sua opinião, por que é tão difícil falar "eu te amo"? 

Porque somos mais fortes quando não abrimos nosso coração. E aí ficamos naquela situação de "é óbvio que eu te amo", mas nem sempre é tão óbvio assim. Isso é bem comum naquelas famílias mais tradicionais, em que o pai se mantém distante. Ele tem medo de se expressar e esconde esse sentimento. Conheci diversas pessoas que não sabiam se seus pais as amavam. A criança, por exemplo, não tem noção de que cuidados diários [com higiene, alimentação etc.] é uma forma de amor, ela ainda está descobrindo também o que é esse sentimento. 

Você acredita que expressar esse sentimento ajuda os pais a se reconectarem com a paternidade? 

Sim. Antes, o pai era aquele durão, distante e o mantenedor da casa. Aí vieram os movimentos feministas, que são necessários, e trouxeram mais direitos para as mulheres. Hoje, elas podem ser o que elas quiserem. Mas, nesse processo, a gente meio que se perdeu. Não sabemos exatamente qual o nosso papel. Hoje o homem não pode ser o que ele quiser. Ele ainda está preso naquela ideia opressora de masculinidade. É bem limitador só pagar conta, ser o provedor, o pegador. Isso acaba restringindo muito as emoções. O cara que se liberta é mais livre, mais equilibrado e se permite viver mais as emoções, e com certeza aprende a falar mais "eu te amo". 

A figura tradicional do pai durão e distante é conhecida. Mas e a mãe durona, que não fala "eu te amo", isso dói mais? 

Acredito que sim. A relação com a mãe é mais terna, tem uma coisa fisiológica muito forte. 

'O Poder do Eu Te Amo' foi lançado no início de maio. A obra é baseada em um vídeo em que Piangers conta como falar 'eu te amo' modifica a vida das pessoas.

'O Poder do Eu Te Amo' foi lançado no início de maio. A obra é baseada em um vídeo em que Piangers conta como falar 'eu te amo' modifica a vida das pessoas. Foto: Divulgação

Depois de dar tantas palestras e receber tantas mensagens, você ainda se emociona com o retorno das pessoas? 

Muito. Eu ainda me emociono ao reler o livro [O Poder do Amor] e ver o que ele desperta nas pessoas. Recebi muitas mensagens de filhos que diziam que só a reflexão sobre o significado de falar "eu te amo" já estava ajudando. E isso é algo que não quero perder nunca. Já recebi e-mails agressivos por brincadeiras que fiz nas redes sociais, e isso me abalou. Me disseram que, com o tempo, eu iria me acostumar e passar a ignorar. Mas a questão é que eu não quero me acostumar! Não quero parar de me importar. Continuo me emocionando profundamente, respondo a todas as mensagens e aprendo muito com tudo isso. Eu não tive nenhuma formação acadêmica para falar das emoções humanas, de família, então aprendo com as experiências dos outros. É difícil uma palestra em que eu não termine em lágrimas. 

Sua mãe criou você sem a ajuda do pai, que você só foi conhecer depois de adulto. Falar disso foi importante? 

Sim. Essa "terapia pública" fez parte da minha cura. Minha mãe nunca me falou quem era meu pai, e não saber é terrível. A gente acaba criando mil cenários na cabeça, achando que ou ele é um herói, alguém incrível, ou uma pessoa muito ruim. Aí minha mãe teve câncer e, quando eu estava com 35 anos, ela me contou quem ele era. E ele é um cara normal. A minha história é bem comum no Brasil, acontece muito. E eu decidi não ficar lamentando minha vida, minha história, que é tão comum. 

Ser pai ajudou nesse processo de cura? 

Ser pai foi o começo da cura. Ter filho é muito desafiador, tudo que a gente não entendia com nossos pais você começa a entender. Você começa a ver “nossa, olha eu aqui fazendo tudo igual”. As fichas caem. E a troca afetiva também é muito curativa. Podemos ser crianças de novo, podemos experimentar tudo de novo com elas sem ter alguém falando para parar. Somos livres para viver de novo esse mundo encantado. 

Marcos Piangers é pai de Anita, 13 anos; e Aurora, 5 anos. 

Marcos Piangers é pai de Anita, 13 anos; e Aurora, 5 anos.  Foto: Foto: Giselle Sauer

Você é pai da Anita, de 13 anos, e da Aurora, de 5 anos. Elas assistem suas palestras?

De vez em quando elas vão, sim. A Anita é claramente uma mulher forte [rindo]. Ela é estudiosa, é mais crítica e analítica. Ela levanta no meio das palestras e fala: “Mais ou menos, né, pai!”, quando eu conto alguma história e ela não concorda. Mas eu gosto. Isso me ajuda a me colocar no meu lugar, a ser mais humilde. Já a Aurora é muito fofinha. Se ela pudesse, diria que quer ser um unicórnio quando crescer [risos]. A chegada dela transformou minha vida em um mundo encantado. 

Como é conviver com tantas mulheres?

É bom. A figura da minha mãe, Eloísa, sempre foi muito forte na minha vida. Ela tem muita opinião, me ensinou sobre ser resiliente. Ela até hoje me ensina a ser feliz. Estar com tantas mulheres por perto é importante para que eu trabalhe o meu lado feminino. Todo homem tem um. Elas me deram segurança para expressar meus sentimentos. 

Você chegou até aqui com três livros publicados, centenas de palestras dadas, vídeos com milhões de visualizações. Olhando para trás, você imaginava que conseguiria conquistar tudo isso? 

Não! Nem imaginava. Quando lancei o primeiro livro, achei que só minha mãe ia comprar e ia vender umas 300 cópias no total. Esses dias, levando as meninas para a escola, uma mãe me parou e ficou chocada com a minha "normalidade". "Mas agora você é global!", ela disse. Eu acho isso uma ilusão. Sempre vou tentar não pensar nas milhões de pessoas e tudo mais. Não sou melhor que ninguém, aqui é todo mundo aprendendo junto. Quanto menos nos julgarmos, menos culpa teremos. E, quanto mais falarmos sobre esses "assuntos secretos", melhor, seremos mais felizes. 

Sou grato, claro, e me esforço para não falar bobagem, não deseducar. Mas os números são tão grandes que eu prefiro focar no que importa, que é eu resolvendo treta em casa entre as meninas para saber quem vai usar biquíni para ir à praia [rindo].