Maranhão combate surto de beribéri causado por arroz

Lígia Formenti - O Estado de S.Paulo

Fiscais iniciam operação para recolher produto; em 2007, Estado registrou 603 casos suspeitos

Equipes formadas por fiscais sanitários, Exército e integrantes da Secretaria de Agricultura do Maranhão iniciam nos próximos dias uma operação para recolher arroz com suspeita de contaminação no Estado. A ação, que deverá se desenvolver em 42 municípios, é planejada há três semanas e tem como objetivo controlar um surto de beribéri - doença típica entre escravos no Brasil colonial - que, no ano passado, contabilizou 603 casos suspeitos no Estado. Desde o início do surto, 38 pessoas morreram e muitas demoraram meses para se recuperar dos sintomas da doença - inchaços, problemas respiratórios e dificuldades de locomoção.Os primeiros casos de beribéri começaram a ser registrados em 2006. Todas as mortes ocorreram naquele ano. Quando foi confirmada a suspeita, o governo iniciou a distribuição de cestas básicas e tiamina, a vitamina B1. Mesmo assim, o problema não foi controlado. Até o momento, há registros da doença em quatro regiões de saúde do Maranhão. Também há casos no Pará e em Tocantins."A população atingida é extremamente carente. Os homens cumprem jornadas de trabalho exaustivas na lavoura e todos apresentam uma dieta extremamente pobre", relata Márcia Veras, da Secretaria da Saúde e integrante do grupo formado para combater o surto.FUNGOQuando os primeiros casos foram registrados, imaginava-se que o problema estava associado ao consumo excessivo de bebidas ou ao manejo de agrotóxicos. Em julho do ano passado, a convite da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) - que também atua na investigação do surto -, técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) colheram amostras do arroz armazenado em pequenas propriedades e identificaram a contaminação por um fungo, o Penicillium citreonigrum.Em agosto, nota do Ministério da Saúde informava a suspeita de que uma micotoxina - formada pelo metabolismo do fungo - teria contaminado o arroz. No início do século passado, casos de beribéri provocados pela contaminação do arroz já haviam sido descritos no Japão.Somente em dezembro, porém, com o laudo comprovando a presença da micotoxina, é que ações para colher o arroz com suspeita de contaminação começaram a ser planejadas. "Era preciso comprovação. O arroz é usado pela população local para subsistência e também poupança", afirma Márcia.Esta é a primeira vez que a contaminação de alimentos por essa micotoxina, chamada de citreoviridina, é descrita no País. O resultado foi obtido em um trabalho desenvolvido por Carlos Alberto Rosa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).O pesquisador de processos agroindustriais da Embrapa Eduardo da Costa Eifert afirma que a contaminação está intimamente ligada à forma de armazenamento dos grãos. "Ele precisa ser seco de forma adequada e mantido em local livre de umidade", esclarece. Algo que não é fácil de encontrar nas pequenas propriedades do Maranhão. Em muitos locais, o arroz é seco de forma insuficiente e, mais tarde, guardado em sacos dentro das casas, próximos de paredes com infiltrações, sob tetos com goteiras."O Maranhão é um Estado quente, úmido. Se não houver condições adequadas de armazenamento, há ambiente propício para proliferação dos fungos - e micotoxinas produzidas por eles", diz Eifert.O que ainda não tem explicação é o fato de casos de beribéri serem registrados há apenas dois anos. "Dizem que essa micotoxina é resultado de más condições de armazenamento e secagem. Mas os métodos usados por essa população são os mesmos há muitos anos", admite Arnaldo Muniz Garcia, que coordena o grupo de trabalho do Estado de combate à doença. "Talvez o que tenha mudado é o diagnóstico. E outros casos tenham ocorrido no passado, sem sabermos." Para pesquisadores, o fato de 2004 ter sido um ano com volume de chuvas mais alto do que o tradicional também pode ter contribuído para o surto.DIETA POBREA micotoxina presente no arroz contaminado, quando ingerida, acaba impedindo a absorção da vitamina B1 pelas células do organismo, principalmente músculos e nervos. "No caso dos pacientes do Maranhão, há um misto de fatores", afirma Iracilda Viana, que acompanha pacientes que se recuperam da doença. Ela observa que a maior parte das pessoas que tiveram beribéri apresentava uma dieta extremamente pobre, composta por arroz, farinha e feijão. "Verduras e proteína animal são exceção do cardápio."Iracilda avalia que tal dieta é fruto, sobretudo, da pobreza. Mas há também um traço cultural, pondera. "Nas nossas intervenções, aconselhamos a população a plantar verduras nos quintais. Não há dúvida de que isso pode enriquecer muito o cardápio diário."