Mais atenção ao câncer hereditário

Ricardo Westin e Paula Pereira - O Estado de S.Paulo

Inca lidera rede de hospitais públicos especializados em tipo de tumor que é passado de pais para filhos

Os hospitais brasileiros começam a dar atenção aos pacientes que sofrem ou podem sofrer de um tipo especial de tumor, o que é passado de pai para filho. Pelo menos 15 instituições do País já abriram ou estão montando ambulatórios de aconselhamento em câncer hereditário, responsável por 10% dos casos da doença.Como nos demais serviços de câncer, esses ambulatórios oferecem tratamento médico e acompanhamento psicológico. A diferença está na presença de um geneticista, profissional que analisa exames de DNA e identifica quais pessoas de uma família ficarão doentes antes mesmo do aparecimento das primeiras células cancerosas.Isso é importante porque as mortes costumam ocorrer nos casos em que os pacientes descobrem a doença e começam o tratamento quando já é tarde demais. Para a cura, é imprescindível o diagnóstico precoce.Na cidade de São Paulo, existem ambulatórios de câncer hereditário no Hospital A.C. Camargo (antigo Hospital do Câncer), na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e, há poucos meses, no Hospital Albert Einstein. No interior do Estado, há serviços no Hospital das Clínicas de Campinas e no de Ribeirão.No início deste ano, o Instituto Nacional de Câncer (Inca), ligado ao Ministério da Saúde, organizou mais de dez hospitais públicos de todas as regiões do País numa rede que pretende se tornar referência nacional no diagnóstico, no tratamento e no estudo do câncer hereditário.DO PAI OU DA MÃESão mutações nos genes que dão origem ao câncer. Em 90% dos casos, as alterações ocorrem ao longo da vida, provocadas pelo sol (câncer de pele), pelo cigarro (pulmão), pelo vírus HPV (útero e boca) e por vários outros fatores.Nos 10% restantes, as pessoas já nascem com uma mutação genética, herdada do pai ou da mãe. Isso aumenta consideravelmente as chances de desenvolverem um tumor em algum momento da vida. No câncer de mama, o risco médio de uma mulher ter a doença é de 13%. Se a mutação é hereditária, sobe para 85%. Em certos casos de câncer de intestino, a probabilidade de desenvolver o mal é de 100%.Considerando-se a estimativa de 10%, o Brasil teria registrado no ano passado algo como 47 mil novos casos de câncer familiar. Na prática, o número de brasileiros que sabem estar nesse grupo é muito menor. "Os médicos vêm tratando esses problemas como se fossem casos isolados. Não se preocupam em olhar os parentes, analisar o histórico familiar", critica a oncogeneticista Maria Isabel Achatz, do Hospital A.C.Camargo. Os ambulatórios de aconselhamento genético investigam se o tumor do paciente está entre aqueles 10% hereditários. Se sim, procuram na família outros portadores da mutação genética. Pessoas saudáveis, mas com parentes doentes, também procuram os serviços para descobrir se carregam o problema.Vários sinais indicam a possibilidade de o câncer ser uma marca familiar: se a doença se desenvolveu quando a pessoa era jovem, se pelo menos três parentes de primeiro grau sofreram do mesmo tumor e se uma pessoa teve mais de um câncer ou apresentou a doença bilateralmente (nas duas mamas ou nos dois rins, por exemplo).O QUE FAZERQuando se descobre a mutação nos genes, todos os cuidados precisam ser tomados para que a doença não se desenvolva. Exames como ultra-sonografia da mama e colonoscopia devem ser feitos antes da idade recomendada para a população em geral e com um menor intervalo de tempo entre um e outro.O câncer de intestino ilustra bem essa necessidade. Na população normal, são necessários 20 anos entre o surgimento de um pólipo e sua transformação em tumor. Nos casos hereditários, esse tempo cai para dois anos. Outro cuidado simples é a adoção de hábitos saudáveis. Mais que ninguém, quem tem predisposição genética para o câncer deve ficar longe do cigarro, melhorar a alimentação e fazer atividades físicas com regularidade.Ações drásticas às vezes são necessárias. Dependendo do prognóstico, recomenda-se a retirada antecipada da mama ou do intestino, por exemplo. São casos em que nenhum tratamento seria capaz de evitar a evolução da doença e a morte do paciente. "Se deixamos o câncer aparecer e seguir seu curso, precisamos de quimioterapia, radioterapia e cuidados paliativos, o que não é bom em termos de gastos e de qualidade de vida do paciente. É muito mais inteligente evitar a doença, mesmo que isso inclua remédios e pequenas biópsias e cirurgias", afirma o oncologista José Cláudio Casali, do Inca.