Mãe à distância

Keila Bis/ESPECIAL PARA O SF - O Estado de S.Paulo

A forte relação da modelo Carolina Bittencourt com o Haiti fez dela uma das grandes apoiadoras dos orfanatos-escolas de lá

 

No dia 12 de janeiro deste ano, em um hospital de Nova York, nascia Olívia. A primeira filha da modelo brasileira Carolina Bittencourt e do profissional multimídia haitiano Cedrick Roche veio ao mundo duas horas antes de o terremoto atingir o Haiti e provocar a morte de mais de 200 mil pessoas. A alegria indefinível, que somente os pais sentem com o nascimento de um filho, logo deu lugar à preocupação e desespero.

 

"Não tínhamos como ter notícias da família do meu marido. Foi muito angustiante. Não sabíamos se estavam vivos ou mortos. Além disso, estávamos desesperados para ter notícias das nossas crianças do orfanato-escola", relembra Carolina.

 

As crianças do orfanato-escola às quais Carolina se refere fazem parte da ONG Lakay Pam, que a modelo apóia com o marido desde 2005, e que é sediada na capital Porto Príncipe. "Eu não tenho como explicar a relação que mantenho com o Haiti. Meu marido é haitiano, minha filha nasceu em um dia que vai marcar a história do país para sempre. E eu, que sempre sonhei em ajudar as pessoas, descobri que o lugar certo para fazer isso seria lá, logo na primeira viagem que fiz ao Haiti."

 

Lakay Pam, na língua crioulo local, significa "minha casa." O nome não poderia ser mais apropriado para um lugar que abriga mais de 450 crianças órfãs, em um dos cantos mais miseráveis do mundo. E, felizmente, a área onde a ONG está instalada não foi atingida pelo terremoto. As crianças foram preservadas, assim como a família do marido de Carolina, que nada sofreu.

 

As crianças que vivem no orfanato-escola recebem todo o auxílio de que necessitam para se desenvolverem de forma saudável. "Elas dormem, fazem todas as refeições, brincam, têm aulas. Lá também tem uma capela onde elas rezam todos os dias. Não lhes falta nada. Todas as necessidades básicas de higiene, alimentação, saúde e educação são supridas. E elas recebem muito amor e carinho", conta Carolina, que não fala crioulo e, assim, se comunica com elas por meio de demonstrações de afeto.

 

A cada três meses, ela e o marido visitam o local, pois a distância entre Nova York, onde moram, e o Haiti é de apenas três horas. No começo, Carolina começou a apoiar a ONG juntando moedas, e as trocando por dinheiro no final de cada mês. "No Haiti, 100 dólares é muita coisa."

 

Mas a vontade de se envolver cada vez mais a levou a adotar outras ações. "Meus amigos começaram a contribuir financeiramente também. Isso ajudou muito a manutenção e aprimoramento do orfanato-escola. O meu marido conseguiu o apoio da Colgate e as coisas foram melhorando", conta.

 

Em fevereiro deste ano, uma ação mais planejada resultou em um apoio mais consistente. Carolina e Cedrick organizaram o leilão Open Your Heart na galeria de arte Opera Galery, em Nova York, para mais de 300 pessoas. Com isso, arrecadaram 85 mil dólares. "Conseguimos uma camisa que o Ronaldinho Gaúcho doou. A modelo Alessandra Ambrósio foi a hostess. O artista plástico Mr Brain Wash doou dois quadros. A modelo canadense Raquel Zimmerman cedeu uma foto própria. E muitos outros contribuíram!"

 

Mil crianças haitianas. O sucesso do primeiro evento incentivou o casal a ajudar mais orfanatos-escolas. "Antes de eu vir ao Brasil, fui com o Cedrick e a Olívia ao Haiti e selecionamos mais quatro orfanatos-escolas para apoiar", revela. Agora a ajuda se estende a mil crianças. "A responsabilidade passou a ser muito maior e, por isso, planejamos mais um evento, que aconteceu no dia 7 de setembro."

 

Assim como o primeiro, receberam muitas doações de personalidades famosas, que foram leiloadas, e o dinheiro foi dirigido aos cinco orfanatos-escolas. "Quero que um dia a nossa ONG seja reconhecida no mundo inteiro como uma entidade responsável, que ajuda as crianças, pois elas são o nosso futuro", sonha Carolina.

 

E mais do que isso, Carolina e o marido pretendem criar vilas sustentáveis para os haitianos desabrigados. "Queremos oferecer a eles as condições essenciais para se viver. O Haiti é tão miserável que a energia elétrica existe somente por três horas. Após o terremoto, a situação piorou tanto que é difícil de explicar."

 

Muito antes de existir a Lakay Pam, Carolina já praticava a solidariedade. Inscreveu-se na World Vision, entidade que incentiva a adoção à distancia de crianças pobres do mundo todo. "Eu adotei a Janne, de Ruanda, quando ela tinha poucos anos de vida. Hoje ela tem 16." A ajuda consiste em manter totalmente a criança, dando-lhe suporte financeiro para educação, alimentação, vestuário e higiene. "Todos os meses eu recebo da escola o boletim de notas dela", conta.

 

Apesar da pouca idade (Carolina tem 29 anos), a modelo paulista é exemplo de solidariedade. Ser modelo foi sempre o seu único e oficial trabalho. Aos 16 anos, foi descoberta por um agente na sua cidade natal, Campinas, onde moram até hoje seus pais e irmãos. "Um dia meu pai foi ao supermercado com minha irmã gêmea Mariana e um agente o abordou, querendo transformá-la em modelo. O meu pai disse a ele: eu tenho outra igual a essa em casa."

 

Carolina logo estaria nas principais capas de revistas de moda do mundo, como Vogue, Marie Claire e Elle. Viajou o mundo e desfila para os mais importantes estilistas, como Gucci, Armani, Versace e Prada. Continua a carreira de modelo, mas não se esquece das crianças haitianas.