Madeira, látex e... Bolsa Família

Carlos Mendes - O Estado de S.Paulo

São Francisco do Pará derrubou matas e empobreceu

O agricultor José Pires de Moura, de 48 anos, é sobrevivente de uma catástrofe ambiental que atingiu São Francisco do Pará, no nordeste do Estado, nos últimos 40 anos. Ele viu empresas madeireiras derrubarem 96% das florestas do município ao longo da extinta ferrovia Belém-Bragança e levarem toda a madeira. Também testemunhou a falência do projeto de plantio e extração de látex da poderosa multinacional americana Goodyear, que empregava quase toda a mão-de-obra da região.Sobraram hoje em São Francisco, de mata nativa, apenas 2 mil hectares. A floresta fica dentro do assentamento de trabalhadores rurais Luiz Lopes Sobrinho, ocupado por 223 famílias. Mas a pressão para derrubar o que restou é muito forte. Os assentados radicalizaram: não deixam entrar nenhum trator ou motosserra e fiscalizam uns aos outros.Quando as árvores ainda estavam livres de ameaças dos madeireiros e havia prosperidade econômica, até 1961, São Francisco tinha outro nome, que políticos influentes detestavam: Anhangá. Trata-se de um ser temido e respeitado na mitologia paraense. Tem a forma de um demônio, mas é do bem. Não gosta de predadores do ambiente. Castiga o caçador que persegue animais que ainda mamam ou amamentam.A mata parecia longe de virar deserto e a caça era abundante na região sob a proteção do Anhangá, garantem moradores antigos. Banido por um decreto estadual, o ser mitológico parece ter lavado as mãos sobre o destino de São Francisco ao ceder o nome do município para o santo católico.''''Eu morava em Castanhal e vim para cá ainda garotinho. Não me arrependi. Apesar de tudo, vivo melhor'''', diz Moura. Funcionário da prefeitura, recebe um salário mínimo que lhe permite cuidar da mulher e dos quatro filhos. No quintal da casa, para completar a renda, planta alface, couve e pimenta-do-reino. Vende o que colhe na cidade de 15 mil habitantes, faturando R$ 300 por mês.Os números de São Francisco são de extrema pobreza, segundo os parâmetros da Organização das Nações Unidas (ONU). A renda média anual da população é de R$ 1.485,00, de acordo com o último levantamento do IBGE. Um terço dos moradores vive com menos de US$ 1 por dia. Isso significa um total de 4,5 mil pessoas na miséria. Cerca de 60% das casas não têm água encanada e 30% das pessoas com mais de 25 anos são analfabetas.A secretária de políticas públicas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Francisco do Pará, Valdineide Ventura da Silva, observa que a falta de indústrias deixou a população dependente direta do programa Bolsa Família, do governo federal. ''''Aqui, 70% das famílias vivem dessa bolsa'''', afirma.O que se planta na cidade é vendido na própria região porque o frete é caro demais para chegar a Belém, a 110 km. Depois do fechamento da fábrica da Goodyear, na década de 80, o desemprego tomou conta das ruas. As vendas no comércio estagnaram e comerciantes fecharam as portas.